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A cultura e as línguas clássicas

Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

A cultura e as línguas clássicas

Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

Cultura Clássica em alta?

Estará a cultura clássica a ter, finalmente, a valorização que lhe é devida?

Há, pelo menos, alguns sinais positivos.

O exame nacional de 9º ano da disciplina de Português traz bons augúrios para a cultura greco-romana e para o conhecimento do nosso passado histórico. Vejamos:

 

A prova é constituída por 4 grupos de questões.

— No I Grupo, para testar a compreensão oral, o aluno tinha de  ouvir um texto informativo sobre o Templo Romano de Évora para depois responder a questões sobre o que ouviu.

— O II Grupo é constituído por 3 textos.

     - O texto A, extraído da obra pubicada na Faculdade de Letras de Coimbra “Espaços e Paisagens. Antiguidade Clássica e Herança Contemporânea”, fala dos monumentos da Antiguidade, destacando que já “na Grécia antiga, a experiência do turismo surge, desde os primórdios, associada à religião e ao património artístico e arquitetónico”, o que se comprova pelos textos dos autores da literatura grega e latina, que podem ser considerados “os primeiros guias turísticos”.

    - O texto B é um extracto da Ilíada de Homero adaptada para Jovens por Frederico Lourenço e apresenta-nos os deuses no Olimpo, discutindo sobre o destino de Tróia.

   - O texto C transcreve a estância 40 do Canto I de Os Lusíadas, com a fala de Marte a Júpiter, incitando-o  a enviar o seu mensageiro junto da armada lusa para a orientar na viagem.

— No Grupo IV pede-se ao aluno um texto em que exponha a sua opinião sobre se “é importante estudar o passado da Humanidade”.

 

Claramente uma óptima sequência temática que põe em destaque o valor do passado histórico-cultural, despertando os jovens para o seu estudo.

 

Gaudeamus, igitur!

 

Lentamente, passo a passo, parece que estamos a reverter a situação de esquecimento a que estes estudos foram votados nos últimos anos. Pelo menos ao nível do ensino básico...

 

Começámos, em 2015, pela aprovação de uma disciplina de Introdução à Cultura e às Línguas Clássicas, como oferta de escola, nos três ciclos do Ensino Básico.

No ano lectivo que agora termina foi o projecto “Clássicos em Rede” e as Olimpíadas da Cultura Clássica que alcançou um enorme êxito: vimos escolas empenhadas no estudo dos vários temas propostos, pedido de sessões destinadas a alunos e professores, os alunos a produzirem trabalhos em suportes diversos e a festa, no final, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Finalmente, a prova de exame do 9º ano...

 

Aguardemos a continuação destes pequenos/grandes êxitos e que eles se propaguem ao Ensino Secundário e ao estudo das línguas, o Grego e o Latim.

 

Os mitos são necessários ao nosso quotidiano

Carlos Garcia Gual, catedrático emérito de Filologia Grega da Universidade Complutense de Madrid, em entrevista de 1 de Março de 2018, que pode ser lida aqui, fala sobre “os mitos e a sua ausência na sociedade contemporânea”, afirmando que “O ser humano sem fantasia está muito recortado e limitado”. Ele que é autor de um “Dicionário de Mitos” define-os deste modo:

 

“ os mitos são grandes relatos que permanecem na memória colectiva, falam de personagens extraordinárias que realizaram façanhas ou feitos que de alguma maneira marcam o mundo. E por isso pertencem a um passado prestigioso e geralmente distante.”

“ O saber dos mitos enriquece a imaginação, de modo que a gente que tem pouca cultura está muito limitada. O cinema tem sido um grande difusor de mitos, essencial para a mitologia do século XX.”

 

À pergunta “Que contributo pode dar um helenista à sociedade do século XXI” responde:

 

“ Ser um introdutor ou um guia até esse mundo dos gregos antigos, fascinante pela sua riqueza literária e filosófica. As grandes raízes da nossa cultura estão aí, nas personagens da tragédia, Édipo, Medeia, nos historiadores Heródoto, Tucídides, na “Ilíada” ou na “Odisseia”. Eu sou parcial, mas acredito que esse fundo da cultura europeia continua a ser imprescindível, não há um substituto para isso. Devemos deixar que esse mundo entre na nossa imaginação.”

 

Então jornalista confronta-o com esta pergunta:

“Como convencer alguém a ler um clássico na era das redes sociais?”

Ao que G. Gual responde:

 

“Que façam a prova de ler a Odisseia ou a poesia grega e vejam que é algo muito impressionante. As pessoas têm medo dos clássicos porque pensam que são pesados, coisa de professores, e não; os clássicos continuam a ser os grandes descobridores e guias. O ser humano sem fantasia está muito recortado e limitado, por muito que saiba de futebol e de cozinha.”

 

Questionado sobre a evolução que observa nos alunos e professores, tendo em conta a sua experiência de 50 anos de docência, diz que “os alunos antes liam mais, agora têm muitos ecrãs. O mundo actual é o mundo da imagem mais do que da leitura.” Sobre os professore pensa que a Universidade leva a uma “demasiada especialização “, que antes havia professores que atraíam mais, mais abertos, e, na sua opinião, a “cultura deve ser aberta, não é preciso especializar-se desde o princípio, mas antes tentar compreender o mundo”

 

Numa outra entrevista , ao El País (aqui), em 12 de Fevereiro de 2018, é questionado sobre questões mais pessoais, e refere-se à sua educação de base, ao gosto pelos livros que deve ao avô, que tinha uma boa biblioteca, afirmando que gente como o seu avô “que tinha uma grande cultura literária e estava a par do que se passava, que anotava os seus livros, está a desaparecer”

Comparando os seus tempos de estudante universitário com a actualidade é peremptório a afirmar que “agora os alunos lêem pouco. Fora do que é obrigatório não sabem nada. Passam muito tempo dedicados ao telemóvel, e não lhe fica quase nada para ler.”

 

E acrescenta mais adiante:

“ para mim, ler é entrar num mundo de horizontes quase infinitos e onde há figuras dramáticas e situações e épocas que são muito mais interessantes que o meu próprio contexto. Quem não lê está limitado às sua circunstâncias mais próximas: os vizinhos, a televisão, os jogos. Para mim, a leitura é como um campo de corrida. Sempre li e escrevi sobre aquilo de que gosto... e fiz tudo por prazer."

 

Estudar as Línguas Clássicas - 3

Neste início de ano lectivo, cumpre-nos reflectir, uma vez mais, sobre a escola que temos, a escola que queremos, a escola que devíamos ter.

 

Deve a escola preocupar-se, apenas, com a preparação do jovem para o mundo do trabalho? É essa a sua função? Ou cumpre-lhe preparar um cidadão integral, crítico e responsável, capaz de discernir por si nas mais variadas situações, um cidadão que não se deixa manipular por uma sociedade toda virada para o presente imediato, para o utilitário e vantajoso, para o financeiramente lucrativo?

 

O escritor e jornalista espanhol Arturo Pérez-Reverte, numa crónica com o sugestivo título “Demasiado lejos de Troya”, publicada na revista XLSemanal de 24 de Setembro, e que pode ser lida aqui, comenta o estudo das línguas clássicas no seu país, lamentando as sucessivas leis sobre ensino que conduziram ao actual estado de abandono de um conhecimento essencial.

 

No seu pais como no nosso (aliás, em Portugal a situação é muito pior...) o estudo da cultura clássica e das línguas latina e grega está a desaparecer, substituído por disciplinas que, na lógica actual, são mais importantes para o futuro dos jovens. Dá um exemplo, comum entre nós (também para pior...), de um amigo, professor num colégio, que não conseguiu abrir um curso de Cultura Clássica por ter poucos alunos inscritos. E assim, escreve ele:

 

“Significa que um curso inteiro de estudantes, nesse colégio e em centenas deles, acabará o ensino secundário sem ter nem uma remota ideia de quem foram Homero e Virgílio, sem saber o que o nosso mundo deve a Sólon, Clístenes ou Péricles, sem recordar Sócrates ou buscar o caminho para casa com Xenofonte, sem compreender as importantes consequências para a Hispânia da guerra que pôs frente a frente Cipião e Aníbal. Sem poder, jamais, desfrutar da beleza, da felicidade, de uma frase perfeita e absoluta como «Nox atra cava circumvolat umbra».

 

E continua:

 

“Numa sociedade resolvida a suicidar-se culturalmente, aconselham-se os jovens brilhantes a estudar só cursos científicos ou de ciências sociais; aos menos hábeis, humanidades; ... Tal é o triste mapa do nosso futuro. E neste afã disparatado de apagar das aulas todo o inútil, as malfadadas leis e reformas educativas... conseguiram que os alunos que com 16 anos podem optar por Humanidades — a minha geração estudava Latim básico e obrigatório com 11 ou 12 anos —, se encontra então, pela primeira vez, com o Latim, porém descafeinado e de uma simplicidade aterradora. Mas essa opção, ainda por cima, está em competição com outras socialmente mais bem vistas: a científico-tecnológica e a profissional, de modo que as suas possibilidades são mínimas.”

 

“ Para não falar do Grego, claro. Em algumas comunidades, no 1º ano do bachillerato podem, é certo, optar por Grego e Literatura Universal. Mas os jovens não são tontos, e sabem que o Grego é difícil e tornará mais complicados os exames nacionais. Assim, adeus para sempre a Homero e companhia. ... gerações de jovens cidadãos a quem se rouba o direito a uma educação integral; lançados no mundo sem saber, e sem se importarem de saber quem foram Arquimedes, Séneca ou Catilina, nem o que de verdade e na sua origem significam palavras com agonia, democracia ou isonomia.”

 

      Ele que foi repórter de guerra, antes de se dedicar inteiramente à escrita, termina deste modo:

 

“Não esqueço que a primeira vez que vi arder uma cidade, Nicósia em 1974, com 22 anos, levava na memória o canto II da Eneida. E nos gregos armados que se despediam das suas famílias reconheci sem dificuldade Heitor, o do elmo flamejante. E é disso que se trata, no fim de contas. Sem o Latim, sem o Grego, sem aqueles professores que me guiaram através deles, nunca teria podido compreender Tróia e quanto hoje significa e esclarece. Ter-me-ia perdido entre os dardos aqueus, na negra e côncava noite, sem encontrar nunca o caminho de Ítaca ou das costas de Itália. Sem o modo de observar o mundo com que hoje vivo, envelheço e escrevo.”

O bicho-da-seda

A origem das palavras — etimologias

 

O bicho-da-seda e a sericicultura

 

Bicho-da-seda : em latim bombyx, bombycis palavra derivada do grego βόμβυξ da raiz de βόμβος que significa “ruído”

 

Daí vem o nome científico bombyx mori [ morus, mori: amoreira ], nome dado à espécie mais comum, usada na produção de fios de seda

Este insecto é originário do norte da China, alimenta-se de folhas de amoreira, e foi domesticado há cerca de 3000 anos.

 

Seda — em latim sericum (substantivo)

O adjectivo sericus significava “dos Seres”; de seda

Os Seres — designação, para os romanos, de um povo da Índia oriental, ou da China, o povo da seda

 

O historiador Floro [IV, 12] fala da pacificação dos vários povos sob o reinado do imperador Augusto e refere-se a povos que, ainda que independentes, reconhecem a grandeza de Roma e enviam embaixadores, entre eles estão “os Seres, e os Índios que habitavam sob o sol, que trouxeram pedras preciosas e pérolas”

 

Daí o português sericicultura, a cultura da seda e sericicultor, aquele que se dedica ao cultivo da seda

 

E ainda:

sericina : o princípio constitutivo da seda

seríceo : feito de seda

serigrafia : processo de reprodução de imagens sobre papel, madeira... utilizando um caixilho com tela de seda

serígrafo : aquele que faz serigrafias

serigueiro : aquele que faz obras de seda

etc.

 

“ Não sou velhinho sou gerontolescente”

 

Antigamente era o “velho”, vocábulo derivado do latim vetulus, diminutivo de vetus.

Vetus era, em latim “aquele que não é novo”, o “idoso”, o “antigo”. Opunha-se a novus “novo”, sendo senex o antónimo de juvenis.

 

Na antiga Roma, o cidadão (homem) que tinha entre os 17 e os 30 anos era o adulescens, sendo o Iuuenis, o que tinha entre 30 e 46. Dos 46 aos 60 era considerado senior, sendo o senex o homem que tinha entre 60 e 80 anos de idade.

 

Já no tempo de Cícero o tema da velhice suscitava discussão, a tal ponto que este orador e filósofo lhe dedicou um tratado — De Senectute.

 

Adquirindo a palavra “velho” em português uma conotação desagradável, passou a usar-se mais o termo “idoso”, que designa aquele que tem bastante idade.

 

A sociedade actual, cada vez mais “idosa”, mais envelhecida tratou de abolir esses vocábulos, considerados desagradáveis e, muitas vezes, até insultuosos, porque assim passaram a ser conotados.

 

Daí que, em português, se tenha generalizado desde há uns anos, o termo sénior, para falar da população mais idosa.

Apareceu a Universidade sénior, o desporto sénior, o cartão sénior, o desconto sénior, etc...

 

O pior é quando passa ao plural, seniores ... Então o vocábulo é, quase sempre, mal pronunciado, é-lhe colocada uma acentuação totalmente fora das regras da gramática, ficando mesmo com uma articulação difícil.

 

Ora, sénior é, exactamente, o comparativo do latim senexsénior é o mais velho, em comparação com outros mais novos. Passou depois a designar o idoso, o ancião.

 

Na antiga Roma eram os senes (os velhos) ou os seniores (os mais velhos) que constituíam o senatus (o senado), o órgão de governação mais importante.

Os senatores, exactamente porque a idade trazia um acumular de experiências, de saberes a que os mais novos davam valor, deliberavam sobre as mais importantes decisões para a cidade e para o império, sobre a paz e a guerra.

 

Recentemente (ou não tanto) apareceu o termo gerontolescente, formado à semelhança de adolescente, como se vê.

 

O adolescente é aquele que está a crescer, a desenvolver-se (do latim adolescere, formado de ad+alerealere “alimentar”, “fortificar”, “fazer crescer” — com o prefixo ad que indica movimento para, em direcção a ).

Trata-se do particípio presente desse verbo adolescere: adolescens, adolescentis.

 

Então o gerontolescente é aquele que caminha para velho, para idoso.

 

Temos agora um vocábulo de raiz grega ( γέρων, γέροντος «velho»), formado por analogia com adolescente como se se tratasse também de um particípio presente.

 

O título deste texto foi o título de uma notícia de jornal, uma afirmação de um médico brasileiro, Alexandre Kalache, “autor” do vocábulo, que, recentemente, passou por Coimbra onde deu uma conferência sobre o tema.