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A cultura e as línguas clássicas

Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

A cultura e as línguas clássicas

Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

Da alegria e seus derivados — 2

 

1.

Júbilo — do latim tardio iubilum, por via culta, significa “grande alegria”.

 

O iubilum era um termo popular para designar o “grito de alegria”, uma “aclamação”; designava também o grito de guerra ou de vitória bem como o cântico de alegria nas celebrações religiosas.

 

O verbo iubilare significava, em latim, “soltar gritos de alegria” e “cantar cânticos de alegria, em honra de Deus”.

 

O português jubilar significa “encher de júbilo” e utiliza-se também para designar a aposentação dada a um professor (entre nós, usa-se apenas para os professores universitários, catedráticos, a quem se concede uma aposentação honrosa — em Espanha o termo é aplicado também a outros professores não universitários).

 

Jubilação, professor jubilado.

 

Há ainda o latim iubilaeus (vindo do hebraico, através do grego) que designa uma grande solenidade dos judeus celebrada de 50 em 50 anos.

 

Daí o jubileu, ano jubileu, ano em que o Papa concede indulgências, em certas solenidades; o termo estendeu-se depois a outros aniversários solenes.

 

2.

Regozijo — manifestação de prazer, contentamento, alegria.

 

Derivado do verbo regozijar, vindo, talvez, do castelhano regocijar, que, por sua vez, estará relacionado com goce (que deu o português gozo), na sua etimologia relacionado com o latim gaudium.

 

3.

Satisfação — neste contexto da alegria, significa que temos o suficiente, o quanto baste para nos dar felicidade.

 

Do latim satisfactio  - formado de satis “suficiente”, “bastante” e da raiz do verbo facio “fazer”, quer dizer “fazer o suficiente, o bastante”, logo “ter êxito” e, portanto, estar contente.

 

4.

Aprazimento é “contentamento”, “satisfação”, “prazer” é o contentamento com algo que me é agradável, que me dá prazer.

 

Da mesma família do verbo aprazer e do adjectivo aprazível, vindos de prazer.

 

Relacionam-se com o latim placere que significa “agradar”, “ser agradável”, “parecer bem”.

 

Aprazimento será, assim, uma alegria calma, serena (a palavra é da mesma raiz de plácido (= calmo, tranquilo).

 

“O que me apraz referir é o facto de se tratar de um local plácido, uma paisagem aprazível que nos dá um enorme prazer partilhar com os amigos”

Curiosidades linguísticas - Rostrum

As palavras têm uma história, umas mais interessantes, outras menos...

 

Rostrum era a palavra que designava o bico da ave — daí passou a designar também alguns objectos com a forma de bico, como “ esporão de navio”, “ponta da relha do arado”...

 

Sendo uma palavra do género neutro, no plural é rostra.

 

No Forum Romanum tinha o nome de  ROSTRA a tribuna de onde os oradores falavam ao povo porque estava ornamentada com os esporões (rostra “as proas”) de bronze dos navios tomados ao inimigo na batalha de Âncio, no ano 338 a.C., durante a Guerra Latina.

 

Coluna rostrata era uma coluna ornamentada com esporões — uma foi erigida no comitium em honra de  Duílio, o cônsul que venceu os Cartagineses numa batalha naval durante a 1ª Guerra Púnica.

 

Também foi instituído um prémio pela captura de navios aos inimigos — era uma corona rostrata (uma coroa rostrata) enfeitada com pequenos esporões.

 

Da ideia de “bico de pássaro”, rostrum passou a designar também o focinho de qualquer animal, passando depois a aplicar-se também às pessoas.

 

Daí vem, então, o português ROSTO, já usado no século XIII com a forma rostro.

 

Por extensão passou também a designar o “aspecto” a “frente”, daí a “folha de rosto” de um livro, o “rosto da medalha” (a parte da frente).

 

O vocábulo rostrum entra ainda na composição de palavras da área da botânica e da zoologia.

Curiosidades linguísticas

Um anúncio de tratamento da calvície chamou-me a atenção para a palavra: alopécia, a queda do cabelo, por causas diversas.

 

Curiosa a sua etimologia!

 

Do grego ἀλώπηξ, ἀλώπεκος  que significa "raposa", (daí ἀλωπεκία ) chegou ao português através do latim alopex, alopecis "raposa" e alopecia com o significado de "queda dos cabelos e da barba" formando daí o português alopécia (seguindo a acentuação latina).

 

A origem parece estar relacionada com o facto de a raposa ser um animal muito dado à queda do pêlo.

O bicho-da-seda

A origem das palavras — etimologias

 

O bicho-da-seda e a sericicultura

 

Bicho-da-seda : em latim bombyx, bombycis palavra derivada do grego βόμβυξ da raiz de βόμβος que significa “ruído”

 

Daí vem o nome científico bombyx mori [ morus, mori: amoreira ], nome dado à espécie mais comum, usada na produção de fios de seda

Este insecto é originário do norte da China, alimenta-se de folhas de amoreira, e foi domesticado há cerca de 3000 anos.

 

Seda — em latim sericum (substantivo)

O adjectivo sericus significava “dos Seres”; de seda

Os Seres — designação, para os romanos, de um povo da Índia oriental, ou da China, o povo da seda

 

O historiador Floro [IV, 12] fala da pacificação dos vários povos sob o reinado do imperador Augusto e refere-se a povos que, ainda que independentes, reconhecem a grandeza de Roma e enviam embaixadores, entre eles estão “os Seres, e os Índios que habitavam sob o sol, que trouxeram pedras preciosas e pérolas”

 

Daí o português sericicultura, a cultura da seda e sericicultor, aquele que se dedica ao cultivo da seda

 

E ainda:

sericina : o princípio constitutivo da seda

seríceo : feito de seda

serigrafia : processo de reprodução de imagens sobre papel, madeira... utilizando um caixilho com tela de seda

serígrafo : aquele que faz serigrafias

serigueiro : aquele que faz obras de seda

etc.

 

“ Não sou velhinho sou gerontolescente”

 

Antigamente era o “velho”, vocábulo derivado do latim vetulus, diminutivo de vetus.

Vetus era, em latim “aquele que não é novo”, o “idoso”, o “antigo”. Opunha-se a novus “novo”, sendo senex o antónimo de juvenis.

 

Na antiga Roma, o cidadão (homem) que tinha entre os 17 e os 30 anos era o adulescens, sendo o Iuuenis, o que tinha entre 30 e 46. Dos 46 aos 60 era considerado senior, sendo o senex o homem que tinha entre 60 e 80 anos de idade.

 

Já no tempo de Cícero o tema da velhice suscitava discussão, a tal ponto que este orador e filósofo lhe dedicou um tratado — De Senectute.

 

Adquirindo a palavra “velho” em português uma conotação desagradável, passou a usar-se mais o termo “idoso”, que designa aquele que tem bastante idade.

 

A sociedade actual, cada vez mais “idosa”, mais envelhecida tratou de abolir esses vocábulos, considerados desagradáveis e, muitas vezes, até insultuosos, porque assim passaram a ser conotados.

 

Daí que, em português, se tenha generalizado desde há uns anos, o termo sénior, para falar da população mais idosa.

Apareceu a Universidade sénior, o desporto sénior, o cartão sénior, o desconto sénior, etc...

 

O pior é quando passa ao plural, seniores ... Então o vocábulo é, quase sempre, mal pronunciado, é-lhe colocada uma acentuação totalmente fora das regras da gramática, ficando mesmo com uma articulação difícil.

 

Ora, sénior é, exactamente, o comparativo do latim senexsénior é o mais velho, em comparação com outros mais novos. Passou depois a designar o idoso, o ancião.

 

Na antiga Roma eram os senes (os velhos) ou os seniores (os mais velhos) que constituíam o senatus (o senado), o órgão de governação mais importante.

Os senatores, exactamente porque a idade trazia um acumular de experiências, de saberes a que os mais novos davam valor, deliberavam sobre as mais importantes decisões para a cidade e para o império, sobre a paz e a guerra.

 

Recentemente (ou não tanto) apareceu o termo gerontolescente, formado à semelhança de adolescente, como se vê.

 

O adolescente é aquele que está a crescer, a desenvolver-se (do latim adolescere, formado de ad+alerealere “alimentar”, “fortificar”, “fazer crescer” — com o prefixo ad que indica movimento para, em direcção a ).

Trata-se do particípio presente desse verbo adolescere: adolescens, adolescentis.

 

Então o gerontolescente é aquele que caminha para velho, para idoso.

 

Temos agora um vocábulo de raiz grega ( γέρων, γέροντος «velho»), formado por analogia com adolescente como se se tratasse também de um particípio presente.

 

O título deste texto foi o título de uma notícia de jornal, uma afirmação de um médico brasileiro, Alexandre Kalache, “autor” do vocábulo, que, recentemente, passou por Coimbra onde deu uma conferência sobre o tema.

A língua portuguesa e a sua origem

Constantemente lemos e ouvimos grandes "pontapés" na gramática, grandes ofensas à língua portuguesa. Agora mesmo acabo de ouvir na TV que algo era "prejorativo".

Grande asneira! Se soubessem a origem da palavra veriam que se diz e se escreve pejorativo.

É que este vocábulo deriva do latim "pejor" ( ou peior ) que quer dizer pior; trata-se do comparativo de malus "mau", que em português é, igualmente: mau (grau normal), pior (grau comparativo), péssimo (grau superlativo).

Ora, quando se diz que algo tem sentido pejorativo quer dizer que se vê o facto ou a coisa pelo lado pior, nada mais. 

E não cuidar da nossa língua é péssimo!