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A cultura e as línguas clássicas

Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

A cultura e as línguas clássicas

Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

Os mitos são necessários ao nosso quotidiano

Carlos Garcia Gual, catedrático emérito de Filologia Grega da Universidade Complutense de Madrid, em entrevista de 1 de Março de 2018, que pode ser lida aqui, fala sobre “os mitos e a sua ausência na sociedade contemporânea”, afirmando que “O ser humano sem fantasia está muito recortado e limitado”. Ele que é autor de um “Dicionário de Mitos” define-os deste modo:

 

“ os mitos são grandes relatos que permanecem na memória colectiva, falam de personagens extraordinárias que realizaram façanhas ou feitos que de alguma maneira marcam o mundo. E por isso pertencem a um passado prestigioso e geralmente distante.”

“ O saber dos mitos enriquece a imaginação, de modo que a gente que tem pouca cultura está muito limitada. O cinema tem sido um grande difusor de mitos, essencial para a mitologia do século XX.”

 

À pergunta “Que contributo pode dar um helenista à sociedade do século XXI” responde:

 

“ Ser um introdutor ou um guia até esse mundo dos gregos antigos, fascinante pela sua riqueza literária e filosófica. As grandes raízes da nossa cultura estão aí, nas personagens da tragédia, Édipo, Medeia, nos historiadores Heródoto, Tucídides, na “Ilíada” ou na “Odisseia”. Eu sou parcial, mas acredito que esse fundo da cultura europeia continua a ser imprescindível, não há um substituto para isso. Devemos deixar que esse mundo entre na nossa imaginação.”

 

Então jornalista confronta-o com esta pergunta:

“Como convencer alguém a ler um clássico na era das redes sociais?”

Ao que G. Gual responde:

 

“Que façam a prova de ler a Odisseia ou a poesia grega e vejam que é algo muito impressionante. As pessoas têm medo dos clássicos porque pensam que são pesados, coisa de professores, e não; os clássicos continuam a ser os grandes descobridores e guias. O ser humano sem fantasia está muito recortado e limitado, por muito que saiba de futebol e de cozinha.”

 

Questionado sobre a evolução que observa nos alunos e professores, tendo em conta a sua experiência de 50 anos de docência, diz que “os alunos antes liam mais, agora têm muitos ecrãs. O mundo actual é o mundo da imagem mais do que da leitura.” Sobre os professore pensa que a Universidade leva a uma “demasiada especialização “, que antes havia professores que atraíam mais, mais abertos, e, na sua opinião, a “cultura deve ser aberta, não é preciso especializar-se desde o princípio, mas antes tentar compreender o mundo”

 

Numa outra entrevista , ao El País (aqui), em 12 de Fevereiro de 2018, é questionado sobre questões mais pessoais, e refere-se à sua educação de base, ao gosto pelos livros que deve ao avô, que tinha uma boa biblioteca, afirmando que gente como o seu avô “que tinha uma grande cultura literária e estava a par do que se passava, que anotava os seus livros, está a desaparecer”

Comparando os seus tempos de estudante universitário com a actualidade é peremptório a afirmar que “agora os alunos lêem pouco. Fora do que é obrigatório não sabem nada. Passam muito tempo dedicados ao telemóvel, e não lhe fica quase nada para ler.”

 

E acrescenta mais adiante:

“ para mim, ler é entrar num mundo de horizontes quase infinitos e onde há figuras dramáticas e situações e épocas que são muito mais interessantes que o meu próprio contexto. Quem não lê está limitado às sua circunstâncias mais próximas: os vizinhos, a televisão, os jogos. Para mim, a leitura é como um campo de corrida. Sempre li e escrevi sobre aquilo de que gosto... e fiz tudo por prazer."