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A cultura e as línguas clássicas

Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

A cultura e as línguas clássicas

Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

Gimnofobia

A propósito de uma questão colocada num concurso televisivo — o que é gimnofobia?

Não é o medo de “ginásios” (resposta dada pelo concorrente), embora sejam palavras da mesma raiz.

Vejamos:

O adjectivo grego γυμνός (gimnos) significa “nu”, “não coberto” ou “ligeiramente vestido”;

Este adjectivo é da mesma raiz do verbo γυμνόω  que significa “desnudar” ou, na voz passiva, “estar nu”.

Para aperfeiçoar a beleza física, para desenvolver a força e contribuir para a saúde, os gregos praticavam exercício físico. Essa preocupação está presente nas estátuas que nos chegaram e que mostram como o cuidado com o corpo era algo a que dedicavam muita atenção, importante tanto para a preparação do guerreiro, como do cidadão em geral.

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Ora a prática de exercício físico fazia-se com pouca ou nenhuma roupa;

daí γυμνάζω  “desnudar-se para a ginástica”, “fazer ginástica”, “exercitar”

A prática do exercício fazia-se no γυμνάσιον, o ginásio.

Esta a origem das palavras portuguesas: ginásio, ginástica, ginasta, etc.

Mas a origem grega lá está, no adjectivo que significa “nu”.

Portanto, o gimnofóbico não tem medo de ginásios, ele tem medo da nudez.

Sobre a utilidade daquilo que fazemos

Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria

Assim respondeu Júpiter à observação de sua filha, Minerva, segundo a fábula de Fedro.

Conta-nos o fabulista latino esta pequena história:  um dia os deuses resolveram escolher, cada um deles, uma árvore a colocar sob a sua protecção. Assim, Júpiter elegeu o carvalho, Vénus o mirto, Febo, o loureiro, Cibele o pinheiro e Hércules o choupo. Porém Minerva, vendo que nenhuma daquelas árvores dava um fruto útil, perguntou a razão de as terem escolhido ao que Júpiter respondeu que escolheram estas exactamente para que não se pensasse que estavam a vender essa honraria por causa do fruto. Minerva observou que,  exactamente por causa do fruto, ela escolhia a oliveira. A sua opinião foi saudada pelo pai dos deuses, afirmando que, na realidade era uma sábia ideia, visto que se aquilo que fazemos não é útil, então de nada vale vangloriarmo-nos porque essa glória não tem sentido.

E Fedro termina com a moral da história: a fábula aconselha a não fazer nada que não seja útil.

Esta fábula (no sentido latino, fabula significa “história”, “pequena narrativa”) leva-nos a pensar sobre o sentido daquilo que fazemos e também sobre a ideia de utilidade.

Parece ser evidente aqui a ideia de que a utilidade tem a ver com os outros. As árvores dão fruto que será útil a alguém, que o vai alimentar. É, portanto, um sentido altruísta, fazer algo de que alguém vá usufruir, que tem proveito. O verbo utilizado, prodesse, é formado de esse, ser, estar com o prefixo pro-, em favor de, no interesse de; é, assim, existir no interesse de alguém, em favor de alguém. Por isso entenderíamos a moral da história nesse sentido de “não fazer nada que não seja proveitoso a alguém, que não seja em favor de alguém”.

Eis a fábula de Fedro:

 

Arbores in Deorum Tutela

Olim quas uellent esse in tutela sua

diui legereunt arbores. Quercus Ioui,

at myrtus Veneri placuit, Phoebo laurea,

pinus Cybelae, populus celsa Herculi

Minerua admirans quare steriles sumerent

interrogauit. Causam dixit Iuppiter:

Honorem fructu ne uideamus uendere."

"At mehercules narrabit quod quis uoluerit,

oliua nobis propter fructum est gratior."

Tum sic deorum genitor atque hominum sator.

"O nata, merito sapiens dicere omnibus.

Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria."

Nihil agere quod non prosit fabella admonet.

 

Fedro, III, 17

 

Tradução:

As árvores na protecção dos deuses

Um dia, os deuses escolheram as árvores que queriam ter sob a sua protecção. A Júpiter pareceu-lhe bem o carvalho, a Vénus o mirto, a Febo o loureiro, a Cibele o pinheiro, o altivo choupo a Hércules. Minerva admirando-se perguntou por que razão escolhiam árvores estéreis. Júpiter indicou a causa: “Para que não pareça que vendemos a honra pelo fruto.” “Mas, por Hércules, contará isso quem quiser, para nós a oliveira é mais grata por causa do fruto.” Então o pai dos deuses e criador dos homens, falou assim: “ ó filha, merecidamente és chamada sábia por todos. Se não é útil o que fazemos, a glória é vã.”

A historiazinha aconselha a não fazer nada que não seja útil.