A cultura e as línguas clássicas

pesquisar

 
Segunda-feira, 25 / 09 / 17

Estudar as Línguas Clássicas - 3

Neste início de ano lectivo, cumpre-nos reflectir, uma vez mais, sobre a escola que temos, a escola que queremos, a escola que devíamos ter.

 

Deve a escola preocupar-se, apenas, com a preparação do jovem para o mundo do trabalho? É essa a sua função? Ou cumpre-lhe preparar um cidadão integral, crítico e responsável, capaz de discernir por si nas mais variadas situações, um cidadão que não se deixa manipular por uma sociedade toda virada para o presente imediato, para o utilitário e vantajoso, para o financeiramente lucrativo?

 

O escritor e jornalista espanhol Arturo Pérez-Reverte, numa crónica com o sugestivo título “Demasiado lejos de Troya”, publicada na revista XLSemanal de 24 de Setembro, e que pode ser lida aqui, comenta o estudo das línguas clássicas no seu país, lamentando as sucessivas leis sobre ensino que conduziram ao actual estado de abandono de um conhecimento essencial.

 

No seu pais como no nosso (aliás, em Portugal a situação é muito pior...) o estudo da cultura clássica e das línguas latina e grega está a desaparecer, substituído por disciplinas que, na lógica actual, são mais importantes para o futuro dos jovens. Dá um exemplo, comum entre nós (também para pior...), de um amigo, professor num colégio, que não conseguiu abrir um curso de Cultura Clássica por ter poucos alunos inscritos. E assim, escreve ele:

 

“Significa que um curso inteiro de estudantes, nesse colégio e em centenas deles, acabará o ensino secundário sem ter nem uma remota ideia de quem foram Homero e Virgílio, sem saber o que o nosso mundo deve a Sólon, Clístenes ou Péricles, sem recordar Sócrates ou buscar o caminho para casa com Xenofonte, sem compreender as importantes consequências para a Hispânia da guerra que pôs frente a frente Cipião e Aníbal. Sem poder, jamais, desfrutar da beleza, da felicidade, de uma frase perfeita e absoluta como «Nox atra cava circumvolat umbra».

 

E continua:

 

“Numa sociedade resolvida a suicidar-se culturalmente, aconselham-se os jovens brilhantes a estudar só cursos científicos ou de ciências sociais; aos menos hábeis, humanidades; ... Tal é o triste mapa do nosso futuro. E neste afã disparatado de apagar das aulas todo o inútil, as malfadadas leis e reformas educativas... conseguiram que os alunos que com 16 anos podem optar por Humanidades — a minha geração estudava Latim básico e obrigatório com 11 ou 12 anos —, se encontra então, pela primeira vez, com o Latim, porém descafeinado e de uma simplicidade aterradora. Mas essa opção, ainda por cima, está em competição com outras socialmente mais bem vistas: a científico-tecnológica e a profissional, de modo que as suas possibilidades são mínimas.”

 

“ Para não falar do Grego, claro. Em algumas comunidades, no 1º ano do bachillerato podem, é certo, optar por Grego e Literatura Universal. Mas os jovens não são tontos, e sabem que o Grego é difícil e tornará mais complicados os exames nacionais. Assim, adeus para sempre a Homero e companhia. ... gerações de jovens cidadãos a quem se rouba o direito a uma educação integral; lançados no mundo sem saber, e sem se importarem de saber quem foram Arquimedes, Séneca ou Catilina, nem o que de verdade e na sua origem significam palavras com agonia, democracia ou isonomia.”

 

      Ele que foi repórter de guerra, antes de se dedicar inteiramente à escrita, termina deste modo:

 

“Não esqueço que a primeira vez que vi arder uma cidade, Nicósia em 1974, com 22 anos, levava na memória o canto II da Eneida. E nos gregos armados que se despediam das suas famílias reconheci sem dificuldade Heitor, o do elmo flamejante. E é disso que se trata, no fim de contas. Sem o Latim, sem o Grego, sem aqueles professores que me guiaram através deles, nunca teria podido compreender Tróia e quanto hoje significa e esclarece. Ter-me-ia perdido entre os dardos aqueus, na negra e côncava noite, sem encontrar nunca o caminho de Ítaca ou das costas de Itália. Sem o modo de observar o mundo com que hoje vivo, envelheço e escrevo.”

publicado por isa às 16:28
Quinta-feira, 21 / 09 / 17

Estudar as Línguas Clássicas - 1

" Rapazes, a internet não basta, para conhecer o mundo é preciso o Latim"

 

Assim começa a Carta dirigida aos estudantes por Ivano Dionigi, neste início de ano lectivo (ver notícia aqui). Este professor universitário italiano e especialista em estudos clássicos tem sido um dos grandes lutadores na defesa das Humanidades, e das Línguas Clássicas em particular, numa altura em que, por todo o lado, se apregoa uma cultura do imediato, do "útil" no sentido economicista, com base, essencialmente, naquilo que, financeiramente, dá lucro.

 

"O Latim ensina-te a importância da palavra"

 

"Nós hoje falamos mal e temos necessidade de uma ecologia linguística"

 

"Porque as palavras, como as pessoas, têm uma origem, um rosto, uma história"

 

Estas algumas frases significativas da carta de Iavano Dionigi, ele que defende a importância de estudar a língua de Cícero, salientando que o Latim ensina o valor da comunicação e, sobretudo, o valor do tempo, pois com a internet arriscamo-nos a permanecer "esmagados" num eterno presente.

 

 

publicado por isa às 12:39
Sexta-feira, 09 / 06 / 17

O bicho-da-seda

A origem das palavras — etimologias

 

O bicho-da-seda e a sericicultura

 

Bicho-da-seda : em latim bombyx, bombycis palavra derivada do grego βόμβυξ da raiz de βόμβος que significa “ruído”

 

Daí vem o nome científico bombyx mori [ morus, mori: amoreira ], nome dado à espécie mais comum, usada na produção de fios de seda

Este insecto é originário do norte da China, alimenta-se de folhas de amoreira, e foi domesticado há cerca de 3000 anos.

 

Seda — em latim sericum (substantivo)

O adjectivo sericus significava “dos Seres”; de seda

Os Seres — designação, para os romanos, de um povo da Índia oriental, ou da China, o povo da seda

 

O historiador Floro [IV, 12] fala da pacificação dos vários povos sob o reinado do imperador Augusto e refere-se a povos que, ainda que independentes, reconhecem a grandeza de Roma e enviam embaixadores, entre eles estão “os Seres, e os Índios que habitavam sob o sol, que trouxeram pedras preciosas e pérolas”

 

Daí o português sericicultura, a cultura da seda e sericicultor, aquele que se dedica ao cultivo da seda

 

E ainda:

sericina : o princípio constitutivo da seda

seríceo : feito de seda

serigrafia : processo de reprodução de imagens sobre papel, madeira... utilizando um caixilho com tela de seda

serígrafo : aquele que faz serigrafias

serigueiro : aquele que faz obras de seda

etc.

 

publicado por isa às 15:43
Segunda-feira, 01 / 05 / 17

Uma cultura humanística para todos

São muitas as vozes que se levantam, nos vários países da Europa, em defesa da cultura clássica, do estudo do Latim e do Grego nas escolas.

 

A professora italiana Emanuela Andreoni Fontecedro, da Universidade Roma Tre (numa entrevista que pode ser lida aqui ), defende que:

 

“é necessário reintroduzir os jovens na cultura humanística com o estudo do latim a partir da escola média. De outro modo “os bárbaros” levarão a melhor."

 

Afirma a professora de literatura latina que desde os anos 80 escreveu muito sobre a necessidade de estudar latim e cultura clássica, mas foi tudo em vão, e daí, declara:

 

“o falhanço da perspectiva educativa deste país, e de outros estados europeus, que renunciaram à sua identidade cultural — fundada no latim e na cultura humanística — está á vista de todos. Não se trata somente de ter traído a própria identidade, mas juntamente com isso ter-se tornado fraco frente às invasões bárbaras (com as quais entendo especialmente o carrocel das idiotices, da maledicência, da conversa vã, dos ídolos primitivos) de assim ter-se ofuscado também a capacidade de compreender o diferente."

 

Por isso defende que:

 

"A cultura profunda de séculos e milénios deveria ser participada por toda a população. Só assim uma sociedade cresce. Daí a necessidade de iniciar a cultura humanística com o estudo do latim a partir da secundária do primeiro grau."

 

"Como professora de literatura e da herança clássica na literatura europeia, observo que a riqueza das disciplinas humanísticas é a âncora do pensamento que oferecem com o seu panorama milenário que engloba a história, a filosofia e as artes. Compreendo que esta força da mente deve ser dada a todos, o mais cedo possível.

 

Escreve: “É um erro sem desculpa o de tornar vazia e superficial uma sociedade, erradicando-a da própria tradição, do conhecimento que forma a mente e a alma de um povo e dão por isso força à nossa escolha. É uma responsabilidade oferecê-la sem raízes às armadilhas materiais e espirituais que a cercam. Mesmo hoje.” Porquê?

 

"A imagem de um povo ignorante, sem história, sem reflexão faz-me pensar no mito da caverna narrado por Platão, justamente na sua República, a obra sobre o Estado. Escravos na caverna os homens não têm conhecimento da verdade e confundem-na com a sombra.

 

A nossa sociedade repudiou a cultura humanística e humilhou os professores da escola, enquanto os media apregoam e premeiam o inútil e o vão. Ora, a cultura humanística serve para compreender o instante que é a nossa vida e ensina a procurar os verdadeiros valores para este instante fugaz, exactamente por isso."

 

 

 

publicado por isa às 20:36
Sábado, 08 / 04 / 17

O nó górdio

Górdio era uma cidade da Frígia (região da Ásia Menor, actualmente território da Turquia), nome que deriva de um dos seus reis, Górdio.

 

Conta a lenda que, em tempos remotos, estando a Frígia mergulhada em terríveis lutas internas, eis que, certo dia, quando os Frígios estavam reunidos em Assembleia, chega à cidade um camponês, com sua mulher e filho, num carro puxado por bois.

Acontece que um oráculo tinha dito que um carro de bois lhes traria um rei que poria fim aos distúrbios. Acreditando nas previsões do oráculo, os frígios elegeram Górdio como seu rei.

Górdio, como agradecimento, dedicou o seu carro a Júpiter, colocando-o na Acrópole atado com o jugo e um nó difícil de desatar.

Após um longo reinado de paz e prosperidade, a Górdio sucedeu seu filho Midas, que morreu sem deixar sucessor.

 

Então um novo oráculo anuncia que quem conseguisse desatar o nó do carro gordiano, que muitos tentavam desatar sem sucesso, seria o rei de toda a Ásia.

 

Um dia Alexandre, O Grande, entra na cidade e vê na Acrópole o carro e o complicado nó.

Assim nos conta o historiador Quinto Cúrcio (3, 1, 12-14):

Vehiculum quo Gordium, Midae patrem, uectum esse constabat, aspexit, cultu haud sane a uilioribus uulgatisque usu abhorrens. Notabile erat iugum adstrictum conpluribus nodis in semetipsos inplicatis et celantibus nexus.

 

“Viu o carro no qual constava que Górdio, pai de Midas, tinha sido transportado, que, na aparência, não diferia dos mais comuns e vulgares em uso. Notável era o jugo apertado com vários nós entrelaçados em si mesmos e com os laços escondidos.“

 

Quando os habitantes lhe falaram no oráculo, Alexandre tentou cumprir a previsão. Os Frígios rodearam-no, para ver de que modo ele resolveria o intrincado nó que ninguém tinha conseguido desatar, visto que as laçadas estavam feitas com tal arte que não era possível ver nem o princípio, nem o fim ( ut unde nexus inciperet quoue se conderet nec ratione nec uisu perspici posset).

 

Então, Alexandre terá dito:

 

 

"Nihil interest quomodo soluantur",

e

gladioque ruptis omnibus loris oraculi sortem uel elusit uel impleuit.

 

“ “Não interessa a forma como são desatados” e tendo cortado com a espada todas as correias, cumpriu ou zombou do sentido do oráculo.”

 

 

Assim a expressão “nó górdio” ficou como metáfora para designar uma dificuldade que parece impossível de resolver, significando “desatar o nó górdio” a capacidade para, de forma inesperada, resolver o que parecia impossível.

 

publicado por isa às 20:58
Quarta-feira, 05 / 04 / 17

Etimologias — exame e enxame

Exame e enxame a mesma origem etimológica

 

À primeira vista estas duas palavras, com significados bem distintos, parece que nada têm a ver uma com a outra. No entanto, têm uma origem comum.

 

Exame e enxame provêm do mesmo étimo latino: examen.

O vocábulo examen significava, em latim, um conjunto de animais ou pessoas, aparecendo a designar um grupo de homens, ou um conjunto de peixes, ou de abelhas, daí, enxame.

A palavra está relacionada com a raiz do verbo ago e o seu composto ex-ago > exigo.

 

Vejamos:

Verbo ago, agis, agere, egi, actum : pôr em movimento; fazer avançar; agir; fazer.

Desta raiz temos o nome agmen, agminis que significa, em termos latos, multidão; é o termo usado, na linguagem militar, para designar um exército em marcha.

Com o profixo ex-, o nome examen, examinis, tem o mesmo sentido de “multidão” e, portanto, examen apium = uma multidão de abelhas, um enxame.

Ainda com o mesmo prefixo ex-, o verbo exigo, exigis, exigere, significa “tirar para fora”, “expulsar” e também, por isso, examinar, medir, pesar.

Examen, substantivo, era ainda o nome que designava o fiel da balança.

Então examen significa também “exame” (do estudante) e não só, e toda a ideia de medir, pesar.

 

Assim se explicam as palavras divergentes, em português, exame e enxame, sendo esta última resultante de uma evolução fonética, motivada, certamente, pela pronúncia do x em determinada época e região, e que levou ao acrescento da consoante nasal –n.

 

Com esta mesma raiz se relacionam outras palavras portuguesas: agir, agente, agenda, exigir, reagir, redigir e também (da raiz do supino – actum) acto, acção, acta, actor, redacção, entre outras.

publicado por isa às 19:00
Segunda-feira, 13 / 02 / 17

"O presente não basta"

O título é de Ivano Dionigi, professor italiano que foi, até 2015, reitor da Universidade de Bolonha, e que publicou, em 2016, um livro intitulado "Il presente non basta. La lezione del latino" (ed.Mondadori).

 

Das entrevistas dadas a propósito do lançamento do livro destacam-se afirmações como estas:

 

"O latim ensinou-me a centralidade da palavra, o valor do tempo e a nobreza da política"

"Ensina  a importância de agir para o bem [mostra o valor ] de uma política que pode ser a expressão mais nobre do homem"

"ensina a centralidade da palavra e ajuda a fazer a distinção entre o simples vocábulo e a palavra de sentido e verdade"

publicado por isa às 15:28
Segunda-feira, 16 / 01 / 17

Cessação da Secção ? Não

A PALAVRA E O SEU SIGNIFICADO — ETIMOLOGIAS

 

A língua portuguesa é rica em vocábulos que, à primeira vista, muito parecidos têm, no entanto, significados diferentes. Portanto há que estar atento!

 

Vejamos as semelhanças entre alguns vocábulos portugueses e as diferenças que vêm da sua origem:

 

cessação “acto de cessar”, “suspensão”, “interrupção”— do latim cessatio, cessationis “paragem”, “cessação”

da raiz do verbo: cessare “parar”, “cessar”

 

— cessão “acto de ceder”, “cedência” — do latim cessio, cessionis “acção de ceder”

   da raiz do verbo cedo, is, ere, cessi, cessum: “andar”, “ir-se embora”, “ceder”, “recuar”

 

secessão “separação daqueles a que se estava unido”

do latim secessio, secessionis “afastamento”, “secessão”, “revolta”

do verbo secedere [composto de se + cedo ] “caminhar à frente”, “afastar-se”, “separar-se”

 

sessão — do latim sessio, sessionis “acção de sentar”, “sessão”, “audiência”

da raiz do verbo sedere “estar sentado”, “estacionar”, “fixar-se”

e sedes, is “assento”, “morada”, “centro” , “sede”

 

Palavras portuguesas da mesma raiz:

  • sede — lugar onde alguém se pode sentar; edifício principal de uma empresa/instituição
  • sedentário (é o que está sempre sentado)

 

                                 [ sessação — sessar (Brasil): peneirar ]

 

seção “humidade na terra” – termo popular e regional (Trás-os-Montes)

 

secção do latim sectio, sectionis “corte” ; daí também “venda em lotes” (dos bens confiscados)

da raiz do verbo secare “cortar”, “separar”

 

Da mesma raiz:

  • sector
  • sectorial
  • sectário
  • seitoira (Trás-os-Montes) “foice para ceifar” [ do latim sectoriasector, sectoris “o que corta”, “cortador”]

 

Portanto, se alguma vez o convidarem para uma sessão sobre agricultura biológica, não faça cessão aos seus hábitos sedentários. Levante-se da sua cadeira e vá. Se, no final, ficou convencido e quer mudar de actividade, não se precipite, vá primeiro à sede da sua empresa, e proponha-lhes a criação de uma secção sobre esse tema. Se o chefe não ceder aos seus argumentos, arme uma secessão. Se está mesmo convencido das suas razões, não se importe que lhe chamem sectário. Em última instância, peça a cessação da sua actividade e parta para iniciar o seu sonho. Tem que aprender muitas coisas nesse sector. Comece pelo princípio, aprenda a ver se a terra tem seção e, quando for preciso, pegue na seitoira e meta mãos à obra.

Na escola ouviu falar da Guerra da secessão dos Estados Unidos, nas lutas entre o Norte e o Sul. Mas cuidado, esta sua secessão exige sucesso, que é outra coisa, e só se alcança com união.

 

 

 

 

 

publicado por isa às 19:26
Sábado, 25 / 06 / 16

“ Não sou velhinho sou gerontolescente”

 

Antigamente era o “velho”, vocábulo derivado do latim vetulus, diminutivo de vetus.

Vetus era, em latim “aquele que não é novo”, o “idoso”, o “antigo”. Opunha-se a novus “novo”, sendo senex o antónimo de juvenis.

 

Na antiga Roma, o cidadão (homem) que tinha entre os 17 e os 30 anos era o adulescens, sendo o Iuuenis, o que tinha entre 30 e 46. Dos 46 aos 60 era considerado senior, sendo o senex o homem que tinha entre 60 e 80 anos de idade.

 

Já no tempo de Cícero o tema da velhice suscitava discussão, a tal ponto que este orador e filósofo lhe dedicou um tratado — De Senectute.

 

Adquirindo a palavra “velho” em português uma conotação desagradável, passou a usar-se mais o termo “idoso”, que designa aquele que tem bastante idade.

 

A sociedade actual, cada vez mais “idosa”, mais envelhecida tratou de abolir esses vocábulos, considerados desagradáveis e, muitas vezes, até insultuosos, porque assim passaram a ser conotados.

 

Daí que, em português, se tenha generalizado desde há uns anos, o termo sénior, para falar da população mais idosa.

Apareceu a Universidade sénior, o desporto sénior, o cartão sénior, o desconto sénior, etc...

 

O pior é quando passa ao plural, seniores ... Então o vocábulo é, quase sempre, mal pronunciado, é-lhe colocada uma acentuação totalmente fora das regras da gramática, ficando mesmo com uma articulação difícil.

 

Ora, sénior é, exactamente, o comparativo do latim senexsénior é o mais velho, em comparação com outros mais novos. Passou depois a designar o idoso, o ancião.

 

Na antiga Roma eram os senes (os velhos) ou os seniores (os mais velhos) que constituíam o senatus (o senado), o órgão de governação mais importante.

Os senatores, exactamente porque a idade trazia um acumular de experiências, de saberes a que os mais novos davam valor, deliberavam sobre as mais importantes decisões para a cidade e para o império, sobre a paz e a guerra.

 

Recentemente (ou não tanto) apareceu o termo gerontolescente, formado à semelhança de adolescente, como se vê.

 

O adolescente é aquele que está a crescer, a desenvolver-se (do latim adolescere, formado de ad+alerealere “alimentar”, “fortificar”, “fazer crescer” — com o prefixo ad que indica movimento para, em direcção a ).

Trata-se do particípio presente desse verbo adolescere: adolescens, adolescentis.

 

Então o gerontolescente é aquele que caminha para velho, para idoso.

 

Temos agora um vocábulo de raiz grega ( γέρων, γέροντος «velho»), formado por analogia com adolescente como se se tratasse também de um particípio presente.

 

O título deste texto foi o título de uma notícia de jornal, uma afirmação de um médico brasileiro, Alexandre Kalache, “autor” do vocábulo, que, recentemente, passou por Coimbra onde deu uma conferência sobre o tema.

publicado por isa às 09:37
Domingo, 12 / 06 / 16

As línguas clássicas na Holanda

Holanda, um país onde as línguas clássicas têm valor

 

Parece que, ao contrário de outros países, nomeadamente os de línguas românicas, na Holanda as línguas clássicas são consideradas importantes para a formação dos jovens e o seu estudo tem vindo a aumentar nos últimos anos, chegando aos 10 mil alunos no ano de 2015.

Neste país do Norte, até onde Júlio César alargou as suas campanhas, há estabelecimentos de ensino — os gymnasia — onde o latim e o grego constituem o tronco comum de aprendizagem. No gymnasium todo o aluno, a partir dos 12 anos, quando acaba o ensino básico e entra no ensino secundário, tem, obrigatoriamente, três anos de latim, com uma média de 2 a 3 horas por semana. A estes três anos seguem-se outros três em que podem optar por uma das línguas, grego ou latim, com uma média de 4 a 6 horas semanais, que podem chegar às 8 a 12 horas se continuarem com as duas línguas.

De salientar que estes estabelecimentos de ensino são tidos em alta conta pelos pais pois asseguram um enquadramento culturalmente mais homogéneo. Um em cada quatro alunos deste país faz a sua escolaridade num gymnasium.

No fim dos seis anos, os alunos fazem um exame de estabelecimento e um exame nacional, sendo a nota final a média destes dois exames.

 

Informação recolhida em Les Classiques entre prospérité et crise — L’enseignement du Grec et du Latin aux Pays-Bas por Bas van Bommel, in La Vie des Classiques (http://www.laviedesclassiques.fr)

 

Vivat lingua latina.png

 

 

 

 

 

publicado por isa às 18:01
Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

mais sobre mim

Outubro 2017

D
S
T
Q
Q
S
S
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

últ. recentes

  • Curioso :)
  • A influência grega veio mais tarde. O que os roman...
  • Não imaginava, pensei que Júpiter fosse superior ...
  • Jano era um deus itálico, não tem correspondente n...
  • "Post" muito interessante! Qual era o deus grego ...
  • Obrigado, seu texto me foi útil.
  • Li a ode à Glória do poeta na tradução de M.H.Roc...
  • A minha frase latina favorita é mesmo "labor omnia...
  • Concordo. O Latim não está morto. Basta olharmos p...

mais comentados

blogs SAPO


Universidade de Aveiro