A cultura e as línguas clássicas

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Quarta-feira, 11 / 10 / 17

"O assassinato de Sócrates" de Marcos Chicot

“Tal como os clássicos perderam o seu modelo de civilização, hoje podemos nós também perdê-lo”

 

A frase é do escritor espanhol Marcos Chicot, autor da novela “O assassinato de Sócrates”, em entrevista que pode ser lida aqui .

 

Admitindo que escreve as suas novelas para dar a conhecer alguma coisa aos leitores, ele que já é autor de outras obras, de que se destaca "O assassinato de Pitágoras", declara a sua admiração pela Grécia clássica:

 

“É uma época fascinante. É uma espécie de milagre, em muito pouco tempo num lugar muito concreto, produziu-se uma explosão prodigiosa nos campos principais do saber, da cultura, do pensamento e em muitos dos campos que consideramos a base da nossa civilização.”

 

Mas, acrescenta:

 

“Aquela civilização de quase dois mil e quinhentos anos é a mais parecida com a nossa. E isso tem que fazer-nos pensar que, tal como os clássicos perderam o seu modelo, hoje podemos perdê-lo nós.”

 

Sobre o seu último livro e o seu apreço por Sócrates:

 

“Todos os ensinamento de Sócrates têm plena vigência, desde a busca do conhecimento até conceitos como a justiça universal”

“Em épocas com um certo nível de progresso pensamos que só podemos caminhar para melhor e a História demonstra que não é assim. Nas situações críticas, quando a prioridade é a sobrevivência, os direitos perdem valor. As crises económicas transformam-se em crises sociais e em crises de valores.”

 

Por isso, quando questionado sobre o desaparecimento da filosofia do curriculum escolar, responde:

 

“Em geral o sistema capitalista, que é muito eficiente, trata de converter as pessoas em unidades de produção e de consumo. E o sistema educativo, infelizmente, está a converter-se num meio para isso. “

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publicado por isa às 18:57
Segunda-feira, 25 / 09 / 17

Estudar as Línguas Clássicas - 3

Neste início de ano lectivo, cumpre-nos reflectir, uma vez mais, sobre a escola que temos, a escola que queremos, a escola que devíamos ter.

 

Deve a escola preocupar-se, apenas, com a preparação do jovem para o mundo do trabalho? É essa a sua função? Ou cumpre-lhe preparar um cidadão integral, crítico e responsável, capaz de discernir por si nas mais variadas situações, um cidadão que não se deixa manipular por uma sociedade toda virada para o presente imediato, para o utilitário e vantajoso, para o financeiramente lucrativo?

 

O escritor e jornalista espanhol Arturo Pérez-Reverte, numa crónica com o sugestivo título “Demasiado lejos de Troya”, publicada na revista XLSemanal de 24 de Setembro, e que pode ser lida aqui, comenta o estudo das línguas clássicas no seu país, lamentando as sucessivas leis sobre ensino que conduziram ao actual estado de abandono de um conhecimento essencial.

 

No seu pais como no nosso (aliás, em Portugal a situação é muito pior...) o estudo da cultura clássica e das línguas latina e grega está a desaparecer, substituído por disciplinas que, na lógica actual, são mais importantes para o futuro dos jovens. Dá um exemplo, comum entre nós (também para pior...), de um amigo, professor num colégio, que não conseguiu abrir um curso de Cultura Clássica por ter poucos alunos inscritos. E assim, escreve ele:

 

“Significa que um curso inteiro de estudantes, nesse colégio e em centenas deles, acabará o ensino secundário sem ter nem uma remota ideia de quem foram Homero e Virgílio, sem saber o que o nosso mundo deve a Sólon, Clístenes ou Péricles, sem recordar Sócrates ou buscar o caminho para casa com Xenofonte, sem compreender as importantes consequências para a Hispânia da guerra que pôs frente a frente Cipião e Aníbal. Sem poder, jamais, desfrutar da beleza, da felicidade, de uma frase perfeita e absoluta como «Nox atra cava circumvolat umbra».

 

E continua:

 

“Numa sociedade resolvida a suicidar-se culturalmente, aconselham-se os jovens brilhantes a estudar só cursos científicos ou de ciências sociais; aos menos hábeis, humanidades; ... Tal é o triste mapa do nosso futuro. E neste afã disparatado de apagar das aulas todo o inútil, as malfadadas leis e reformas educativas... conseguiram que os alunos que com 16 anos podem optar por Humanidades — a minha geração estudava Latim básico e obrigatório com 11 ou 12 anos —, se encontra então, pela primeira vez, com o Latim, porém descafeinado e de uma simplicidade aterradora. Mas essa opção, ainda por cima, está em competição com outras socialmente mais bem vistas: a científico-tecnológica e a profissional, de modo que as suas possibilidades são mínimas.”

 

“ Para não falar do Grego, claro. Em algumas comunidades, no 1º ano do bachillerato podem, é certo, optar por Grego e Literatura Universal. Mas os jovens não são tontos, e sabem que o Grego é difícil e tornará mais complicados os exames nacionais. Assim, adeus para sempre a Homero e companhia. ... gerações de jovens cidadãos a quem se rouba o direito a uma educação integral; lançados no mundo sem saber, e sem se importarem de saber quem foram Arquimedes, Séneca ou Catilina, nem o que de verdade e na sua origem significam palavras com agonia, democracia ou isonomia.”

 

      Ele que foi repórter de guerra, antes de se dedicar inteiramente à escrita, termina deste modo:

 

“Não esqueço que a primeira vez que vi arder uma cidade, Nicósia em 1974, com 22 anos, levava na memória o canto II da Eneida. E nos gregos armados que se despediam das suas famílias reconheci sem dificuldade Heitor, o do elmo flamejante. E é disso que se trata, no fim de contas. Sem o Latim, sem o Grego, sem aqueles professores que me guiaram através deles, nunca teria podido compreender Tróia e quanto hoje significa e esclarece. Ter-me-ia perdido entre os dardos aqueus, na negra e côncava noite, sem encontrar nunca o caminho de Ítaca ou das costas de Itália. Sem o modo de observar o mundo com que hoje vivo, envelheço e escrevo.”

publicado por isa às 16:28
Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

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