Quando se fala na situação a que chegaram as línguas clássicas no nosso ensino secundário (e, por extensão, no superior), culpam-se, muitas vezes, as metodologias de ensino, incompatíveis com os dias de hoje, longe dos interesses dos jovens do século XXI. Os críticos, talvez recordando a forma “desastrosa” como aprenderam latim e a pouca atenção que dedicaram ao seu estudo, dizem que a culpa é dos professores (afinal, não são sempre os professores os culpados dos males do ensino?!) e dos métodos utilizados, que apelam, essencialmente, à memorização, à aprendizagem de regras sem sentido, ao estudo de frases soltas, infantis e ridículas, à luta inglória com um dicionário para dar forma, em português, a um texto antigo, cujo tema se desconhece, de um autor que parece ter sido inventado para tortura dos alunos.

 

É esta a caricatura que se faz das aulas de latim de outros tempos, mas que em nada corresponde já ao que se passa nas escolas actuais, desde há muito.

Longe vão os tempos em que o estudo do latim partia dessa metodologia enfadonha de aprender/decorar regras gramaticais só por si, sem qualquer aplicação ou sentido prático.

A grande mudança começou já nos anos 70 do século passado.

Os métodos há muito são outros, se tivermos em conta as directrizes programáticas e os manuais para o estudo desta disicplina.

 

Se analisarmos com atenção os programas ainda em vigor no ensino secundário, e que datam já de 2001, aí se incluem nos objectivos da disciplina de Latim, entre outros:

 

“— Adquirir conhecimentos específicos de cultura e civilização romanas.

— Identificar a permanência de elementos culturais romanos na moderna civilização ocidental.

— Relacionar aspectos relevantes da cultura portuguesa com a cultura clássica.

— Interpretar o significado de valores tradicionais portugueses na sua relação com o passado.

— Valorizar a identidade da língua portuguesa pelo conhecimento da língua-mãe.

— Reflectir sobre a mensagem que o texto veicula.

— Avaliar criticamente os valores transmitidos e a sua actualidade.”

 

Para , logo de seguida, incluir orientações metodológicas gerais como estas:

 

- Ter sempre presente a relação do texto em estudo com o seu contexto, e a organização de elementos prévios que permitam a sua compreensão.

- Explorar o texto na reciprocidade língua e cultura, tendo em conta um enriquecimento paralelo.

- Ler o texto de forma funcional, partindo da apreensão do sentido global para a compreensão de aspectos particulares.

- Aliar à exploração ideológica a explicitação das estruturas gramaticais necessárias à compreensão do texto.

 

Como se conclui, a base do estudo é o texto, não a frase, e o estudo da língua deve andar a par do estudo da cultura.

Quando se trata de orientações mais específicas para o 10º ano, o primeiro ano do estudo da língua latina, podemos ler, entre as muitas orientações metodológicas, as seguintes:

 

“A leitura em voz alta é um exercício que deve ser praticado desde o início, pois permite que o aluno se familiarize com a língua, fixe vocabulário, que vá, sem esforço, memorizando palavras e estruturas que se lhe tornarão familiares.

A leitura permite captar a ideia geral do texto e, por meio de um questionário logicamente encadeado pelo professor, será feita a exploração dos pontos fundamentais até à compreensão global do texto.

Actividades várias poderão, ainda, ser realizadas:

- levantamento de palavras-chave

- inserção no contexto temático

- resumo do texto

- atribuição de um título.”

 

Mais adianta sublinha-se:

 

“E porque a língua não pode ser entendida sem a cultura que veicula, e porque a mensagem de um texto só faz sentido quando inserida no seu contexto, o estudo da língua e o da civilização e cultura têm de ser paralelos e complementares.”

 

Bem longe estão estas orientações do estudo de frases soltas e sem sentido...

Claro que o estudo da gramática é essencial para um cabal conhecimento da língua, mas será feito a partir do texto, as regras só serão sintetizadas após a observação do seu uso e para compreensão da frase e do texto em estudo. E a memorização será também de grande importância, pois sem memória nada se aprender, não só na língua latina, mas em tudo.

E se confrontarmos com as mais recentes orientações sobre o perfil do aluno à saída do ensino secundário, concluiremos que nada de novo nos trazem, pois, já em 2001, nos mesmos programas, se dizia:

 

“Tendo em vista a consecução dos objectivos definidos, entende-se que o aluno de Latim deverá desenvolver capacidades e conhecimentos que o levem a adquirir as seguintes competências:

— Relacionação da língua e cultura latinas com a língua e cultura portuguesas.

— Observação reflectida de elementos ocorrentes na cultura ocidental continuadores da cultura greco-latina ou dela divergentes.

— Organização e método de trabalho.

— Reflexão autónoma perante uma situação nova.

— Formulação de juízos de valor devidamente fundamentados.

— Aprendizagem individual e gosto pela pesquisa.

— Cooperação e partilha de conhecimentos e experiências.

— Transferência e inter-relação dos saberes.

— Observação crítica da realidade social e cultural.”

 

E não faltava a referência ao uso das tecnologias, as que havia na altura, evidentemente, com a indicação de páginas da internet para pesquisa, de vídeos e filmes.

Se lermos as orientações para o 11º ano, lá encontraremos, por exemplo:

 

“— A leitura de qualquer texto em latim deve ser precedida de uma integração temática e contextual, que poderá ser feita de formas variadas. Exemplos:

- uma breve introdução pelo professor

- uma pesquisa feita pelo aluno

- a apresentação de um vídeo

- a observação de imagens que esclareçam o referente do texto.

Por outro lado, poderá uma primeira leitura do texto e o levantamento das palavras-chave conduzir à identificação do tema global, suscitando, por sua vez, um trabalho de pesquisa.

Só depois da compreensão global se pode passar à análise do texto e à sua exploração nos aspectos linguístico e cultural, a caminho de uma compreensão mais profunda.

A tradução será o passo seguinte.”

 

Os alunos aprenderão, gostarão de aprender, se tiverem quem os ensine, se lhes for apresentado um curriculum em que as línguas clássicas estejam presentes porque necessárias à sua formação.

 

O que falta, então, nas nossas escolas para que a língua latina seja ensinada e aprendida? Falta um curriculum que a inclua como obrigatória. O jovem não escolhe, por sua livre vontade, algo que a família e a sociedade lhe apresentam como inútil. A maturidade de um aluno que ingressa no 10º ano não é ainda compatível com a construção de um curriculum por sua opção. Tem de haver uma matriz curricular obrigatória e nela tem de caber o estudo das línguas clássicas, o latim e o grego. Faltam também nas nossas escolas professores do quadro que façam ouvir a sua voz, que vençam as vozes contrárias, quando se trata de decidir sobre a abertura de turmas de latim ou de grego. É que, nas últimas décadas, o desinvestimento na área das Humanidades levou a que as escolas ficassem privadas de professores com formação específica em estudos clássicos e, por outro lado, a política de contratações foi deixando para trás licenciados nesta área que, entretanto, tiveram que fazer outras opções de vida.

publicado por isa às 18:32