Hoje celebramos Camões.

Talvez a muitos só interesse o feriado e pouco ou nada a obra do poeta. Esses ele não cantaria na sua obra.

 

Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza

De uma austera, apagada e vil tristeza.

 

Os Lusíadas, Canto X, estância 145.

 

Teria o poeta matéria para o seu canto nos tempos de hoje? Vejamos as suas palavras:

 

Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse

A quem ao bem comum e do seu Rei

Antepuser seu próprio interesse,

Inimigo da divina e humana Lei.

Nenhum ambicioso, que quisesse

Subir a grandes cargos, cantarei,

Só por poder com torpes exercícios

Usar mais largamente de seus vícios;

 

Nenhum que use de seu poder bastante

Para servir a seu desejo feio,

E que, por comprazer ao vulgo errante,

Se muda em mais figuras que Proteio.

Nem, Camenas, também cuideis que cante

Quem, com hábito honesto e grave, veio,

Por contentar o Rei, no ofício novo,

A despir e roubar o pobre povo!

 

ibidem, Canto VII, estâncias 84 e 85.

publicado por isa às 16:44