Faleceu João Aguiar.

O jornalista, o escritor, o exímio cultor da língua portuguesa que nos deliciava com as suas crónicas de fina ironia, com o seu espírito crítico sempre atento, com as suas narrativas que entusiasmavam o leitor, faleceu hoje, com 66 anos de idade.

 

Recordamos, a propósito do título deste blog, e porque permanece actual, um texto seu de 2005:

" Há já algum tempo, Isabel II de Inglaterra, falando em público, referiu-se a um ano particularmente doloroso para a monarquia britânica chamando-lhe annus horribilis. Não tardou que um jornalista português escrevesse, em tom chocarreiro, que a rainha, para disfarçar as embrulhadas da família, recorrera ao "latinório".

Latinório. É um termo muitíssimo expressivo. Usado essencialmente pelos labregos que ficam nervosos quando têm de ler qualquer coisa, nem que seja um boletim meteorológico, e também pelos analfabetos funcionais, mais bem vestidos que os anteriores mas igualmente primitivos sob o seu débil verniz, que sentem imediatos sintomas de urticária sempre que lhes cheira a cultura, sob qualquer forma e espécie. É, pois, um termo expressivo e também particularmente revelador; porque a língua portuguesa, como alguns (ainda) sabem, provém justamente do Latim, esse Latim a que se chama, com desprezo, latinório. Entrou-se, portanto, na fase de cuspir no chão da sala e insultar a própria mãezinha.

Isto sucedeu, como referi, há já alguns anos. Entretanto, o tempo correu e tivemos, nós, Portugueses, um annus horribilis (digo só "um" porque sou incuravelmente optimista), [...]. E depois, agora, pela mão do actual Governo, chega-nos, entre outros benefícios, o Choque Tecnológico. No qual eu incluo (perdoem-me se a interpretação está errada) duas linhas importantes de discurso e de acção: o alargamento e o aperfeiçoamento do ensino do Inglês e do ensino da Matemática.   [...]

Assim sendo, há outras matérias, para além da Matemática e do Inglês, que interessaria não varrer das nossas escolas. E é aqui que, por assim dizer, voltamos ao annus horribilis.

Não vou explicar aos leitores os pormenores da estrutura curricular nem os Mistérios do Ministério da Educação. Confesso que não os entendo muito bem. Mas sei que o ensino do Latim e do Grego clássico está a ser reduzido à expressão mais simples, a da inexistência. Por enquanto, são meramente opcionais, e somente em certas áreas — mas dizer isto é dizer pouco. Por vias da já referida estrutura curricular e dos já mencionados Mistérios, o que acontece, hoje, é que um(a) estudante pode querer aprender Latim ou Grego — e tal opção ser-lhe recusada pela força da circunstâncias concretas. Ou seja: o opcional é relativo.

Curiosamente, e por muito estranho que pareça às mentes esclarecidas que se riem do "latinório", o Latim continua a ter bom uso em Direito. E por também estranhíssimo que lhes pareça, um conhecimento ainda que reduzido, desta língua é de grande utilidade na compreensão do Português.

Bem sei que, para essas mentes, tal compreensão não tem a mínima importância: o que é preciso é que a gente se entenda, ainda que seja somente através de onomatopeias. Sucede, porém, que, regra geral, quem não é capaz de uma linguagem coerente e clara também não é capaz de um pensamento escorreito, ou seja: quem escreve e fala mal tende a pensar mal. E para esses não há choque tecnológico que valha. [...]

Neste ponto do discurso, devo dizer que, do fundo da minha humildade, aplaudo com vigor os esforços em prol do Inglês e da Matemática. [...]

Com igual humildade, porém, atrevo-me a lamentar a discreta mas eficaz ofensiva contra o Latim e o Grego. Porque, afinal, nós, como todos os ocidentais, temos uma enorme parte das nossas raízes em Roma e na Grécia. Se as cortarmos, secaremos. É tão simples como isso. ..."

João Aguiar, Super Interessante, nº 86, Junho de 2005

 

 

João Aguiar é autor de uma vasta obra literária. Destacamos alguns títulos: A Voz dos deuses - memórias de um companheiro de armas de Viriato; A Hora de Sertório; Uma Deusa na Bruma.

publicado por isa às 17:16