A cultura e as línguas clássicas

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Sábado, 25 / 06 / 16

“ Não sou velhinho sou gerontolescente”

 

Antigamente era o “velho”, vocábulo derivado do latim vetulus, diminutivo de vetus.

Vetus era, em latim “aquele que não é novo”, o “idoso”, o “antigo”. Opunha-se a novus “novo”, sendo senex o antónimo de juvenis.

 

Na antiga Roma, o cidadão (homem) que tinha entre os 17 e os 30 anos era o adulescens, sendo o Iuuenis, o que tinha entre 30 e 46. Dos 46 aos 60 era considerado senior, sendo o senex o homem que tinha entre 60 e 80 anos de idade.

 

Já no tempo de Cícero o tema da velhice suscitava discussão, a tal ponto que este orador e filósofo lhe dedicou um tratado — De Senectute.

 

Adquirindo a palavra “velho” em português uma conotação desagradável, passou a usar-se mais o termo “idoso”, que designa aquele que tem bastante idade.

 

A sociedade actual, cada vez mais “idosa”, mais envelhecida tratou de abolir esses vocábulos, considerados desagradáveis e, muitas vezes, até insultuosos, porque assim passaram a ser conotados.

 

Daí que, em português, se tenha generalizado desde há uns anos, o termo sénior, para falar da população mais idosa.

Apareceu a Universidade sénior, o desporto sénior, o cartão sénior, o desconto sénior, etc...

 

O pior é quando passa ao plural, seniores ... Então o vocábulo é, quase sempre, mal pronunciado, é-lhe colocada uma acentuação totalmente fora das regras da gramática, ficando mesmo com uma articulação difícil.

 

Ora, sénior é, exactamente, o comparativo do latim senexsénior é o mais velho, em comparação com outros mais novos. Passou depois a designar o idoso, o ancião.

 

Na antiga Roma eram os senes (os velhos) ou os seniores (os mais velhos) que constituíam o senatus (o senado), o órgão de governação mais importante.

Os senatores, exactamente porque a idade trazia um acumular de experiências, de saberes a que os mais novos davam valor, deliberavam sobre as mais importantes decisões para a cidade e para o império, sobre a paz e a guerra.

 

Recentemente (ou não tanto) apareceu o termo gerontolescente, formado à semelhança de adolescente, como se vê.

 

O adolescente é aquele que está a crescer, a desenvolver-se (do latim adolescere, formado de ad+alerealere “alimentar”, “fortificar”, “fazer crescer” — com o prefixo ad que indica movimento para, em direcção a ).

Trata-se do particípio presente desse verbo adolescere: adolescens, adolescentis.

 

Então o gerontolescente é aquele que caminha para velho, para idoso.

 

Temos agora um vocábulo de raiz grega ( γέρων, γέροντος «velho»), formado por analogia com adolescente como se se tratasse também de um particípio presente.

 

O título deste texto foi o título de uma notícia de jornal, uma afirmação de um médico brasileiro, Alexandre Kalache, “autor” do vocábulo, que, recentemente, passou por Coimbra onde deu uma conferência sobre o tema.

publicado por isa às 09:37
Terça-feira, 14 / 06 / 16

Diógenes procurava HOMENS

Captura de ecrã - 2016-06-14, 12.37.53.png

estátua de Diógenes onde?.jpgestátua de Diógenes em Sinope, sua terra natal

 

 

Diógenes, o filósofo, nasceu em Sinope (actual Turquia), mas teve de exilar-se em Atenas, segundo alguns historiadores por ter falsificado moeda (seu pai era banqueiro). Viveu também em Corinto onde veio a falecer, já em idade avançada.

Em Atenas foi discípulo de Antístenes, um aluno e amigo de Sócrates. Antístenes considerava que a felicidade só se alcança pela virtude e que a maior parte dos prazeres não contribuem para tal.

Diógenes foi o seu mais acérrimo seguidor e do apodo que lhe foi dado derivou o nome desta escola filosófica — os cínicos.

Cínico vem de κύων, κυνός, que significa cão ( adj. κυνικός "relativo ao cão"). Assim o tratavam os atenienses por causa da vida que levava e da forma como se dirigia às pessoas para as criticar, “ladrando” como os cães.

Levou até ao extremo as ideias filosóficas do desapego dos bens materiais. Crítico acérrimo da vida social de então, insurgia-se contra os homens que se dedicavam ao luxo e ao prazer material, pois, para ele, a felicidade consistia apenas na satisfação das necessidades básicas. Levava uma vida de total austeridade, vivendo como um mendigo, pedindo esmola nas ruas. Como não lhe davam nada, ele criticava os atenienses que davam esmola aos aleijados, surdos, mas não aos filósofos porque acreditavam que se podia ser cego ou coxo, mas nunca alguém que perdia tempo a pensar. Afirmava ser, na realidade, um cão de caça, daqueles cães que muitas pessoas louvam, mas sem ousar caçar com eles. Era, no fundo, um apátrida, um cidadão do mundo, alguém que, pela palavra, procurava lutar contra a corrupção, contra uma sociedade onde os ricos se banqueteavam e desprezavam os pobres.

Diógenes Laércio na sua obra “Vidas de filósofos ilustres”, livro VI, cap. 2, conta-nos muitas histórias que corriam acerca de Diógenes, pequenas anedotas. Uma das mais conhecida é aquela que diz que ele andava com uma lanterna em plena luz do dia, clamando pela ágora que procurava um homem.— “ Ιώ άνθρωποι“. Quando alguns homens, numa ágora cheia de gente, vieram até ele, Diógenes afugentou-os, exclamando “chamei por homens, não por desperdícios” (“άνθρώπους εκάλεσα ού καθάρματα” )1

Crítico de Platão cujas ideias considerava inúteis para o homem, diz-se que, tendo Platão afirmado que o homem é um animal com dois pés e sem penas, Diógenes depenou um galo e levou-o à escola do filósofo, exclamando “Eis o homem de Platão”.

 

Bibliografia:

  • 1 Diógenes Laércio, VI, 2, καθάρματα: palavra com que se designavam os objectos que, nas purificações, eram rejeitados como impuros.
  • C.Howatson, Diccionario de la Literatura Clasica, Alianza Ed., 1991.
  • Diógenes, el filósofo que vivió como un perro”, in Historia – National Geographic, nº 145.

 

 

 

publicado por isa às 12:43
Domingo, 12 / 06 / 16

As línguas clássicas na Holanda

Holanda, um país onde as línguas clássicas têm valor

 

Parece que, ao contrário de outros países, nomeadamente os de línguas românicas, na Holanda as línguas clássicas são consideradas importantes para a formação dos jovens e o seu estudo tem vindo a aumentar nos últimos anos, chegando aos 10 mil alunos no ano de 2015.

Neste país do Norte, até onde Júlio César alargou as suas campanhas, há estabelecimentos de ensino — os gymnasia — onde o latim e o grego constituem o tronco comum de aprendizagem. No gymnasium todo o aluno, a partir dos 12 anos, quando acaba o ensino básico e entra no ensino secundário, tem, obrigatoriamente, três anos de latim, com uma média de 2 a 3 horas por semana. A estes três anos seguem-se outros três em que podem optar por uma das línguas, grego ou latim, com uma média de 4 a 6 horas semanais, que podem chegar às 8 a 12 horas se continuarem com as duas línguas.

De salientar que estes estabelecimentos de ensino são tidos em alta conta pelos pais pois asseguram um enquadramento culturalmente mais homogéneo. Um em cada quatro alunos deste país faz a sua escolaridade num gymnasium.

No fim dos seis anos, os alunos fazem um exame de estabelecimento e um exame nacional, sendo a nota final a média destes dois exames.

 

Informação recolhida em Les Classiques entre prospérité et crise — L’enseignement du Grec et du Latin aux Pays-Bas por Bas van Bommel, in La Vie des Classiques (http://www.laviedesclassiques.fr)

 

Vivat lingua latina.png

 

 

 

 

 

publicado por isa às 18:01
Sábado, 11 / 06 / 16

Óculos de luxo? em latim...

O latim e a publicidade. Muitas marcas gostam de recorrer ao latim para dar nome aos seus produtos e para os publicitar.

Agora é uma conhecida marca italiana de óculos que assim apresenta a sua nova colecção:

 

NEW || Res\Rei

"Na busca de um nome para os a nossa marca, nós olhámos para algo que simbolizava a nossa herança italiana. Voltámos no tempo para a linguagem da Roma antiga e do seu império: o Latim. RES REI significa "A coisa" em latim. Significa um objeto existente, com substância e forma; mas também significa um conceito, uma ideia. RES / REI é o conjunto de coisas que tornam a vida em torno de nós, em todas as formas dadas." (Handmade in Italy with Love with the best acetates)

 

 E os nomes dos vários modelos são, alguns deles inspirados na mitologia e na história da Roma antiga.

Temos:

 

Minerva (Mythologies take inspiration from the Memphis art movement. Geometrics shapes, bold colors and elaborate patterns are combined in pure Sottsass style!)

 — DianaVenere (Vénus), Giove (Júpiter), Nettuno (Neptuno)

Giullio (“Aut vincere aut mori” - Either to conquer or to die. The Roman Empire, Imperium Rōmānum in Latin native language, at the pick of its expansion, extended across all Mediterranean sea. Each style takes  its name from a Roman Emperor and features bold aesthetics with superior manufacturing.)

 

 

 

 

 

 

 

publicado por isa às 07:46
Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

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