A cultura e as línguas clássicas

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Sexta-feira, 23 / 03 / 12

A língua portuguesa e a sua origem

Constantemente lemos e ouvimos grandes "pontapés" na gramática, grandes ofensas à língua portuguesa. Agora mesmo acabo de ouvir na TV que algo era "prejorativo".

Grande asneira! Se soubessem a origem da palavra veriam que se diz e se escreve pejorativo.

É que este vocábulo deriva do latim "pejor" ( ou peior ) que quer dizer pior; trata-se do comparativo de malus "mau", que em português é, igualmente: mau (grau normal), pior (grau comparativo), péssimo (grau superlativo).

Ora, quando se diz que algo tem sentido pejorativo quer dizer que se vê o facto ou a coisa pelo lado pior, nada mais. 

E não cuidar da nossa língua é péssimo!

publicado por isa às 12:03
Quarta-feira, 21 / 03 / 12

O POETA

O poeta tornar-se-á imortal através da sua poesia.

 

À glória do poeta

 

Exegi monumentum aere perennius


Regalique situ pyramidum altius,


Quod non imber edax, non Aquilo inpotens


Possit diruere aut innumerabilis


Annorum series et fuga temporum.               

Non omnis moriar multaque pars mei


Vitabit Libitinam; usque ego postera


Crescam laude recens, dum Capitolium


Scandet cum tacita uirgine pontifex.


Dicar, qua uiolens obstrepit Aufidus               

Et qua pauper aquae Daunus agrestium


Regnauit populorum ex humili potens,

Princeps Aeolium carmen ad Italos


Deduxisse modos. Sume superbiam


Quaesitam meritis et mihi Delphica               

Lauro cinge uolens, Melpomene, comam.

 

Horácio, Odes, III,30

 

Tradução (de Maria Helena da Rocha Pereira, in Romana — Antologia da Cultura Latina)

 

Erigi monumento mais duradouro do que o bronze,

e mais alto do que as decaídas, régias Pirâmides,

quem nem a chuva voraz, nem o Aquilão, impotente,

poderão destruir, nem dos anos a incontável

sucessão e a passagem dos tempos.

Não morrerei de todo, e de mim a maior parte

escapará a Libitina. No louvor dos pósteros crescerei

renovado, enquanto ao Capitólio ascender

o Pontífice com a Vestal silenciosa.

De mim se dirá que, onde o Áufido corre impetuoso

e onde Dauno, escasso em águas,

sobre povos agrestes reinou, do nada me erguendo,

fui o primeiro que à Itálica medida afeiçoou

o carme eólico. Podes sentir orgulho

pelo mérito alcançado. E tu, ó Melpómene, digna-te

com o louro de Delfos cingir-me a fronte.

publicado por isa às 15:09
Quarta-feira, 21 / 03 / 12

Ode da Primavera

Hoje lembro o poeta Horácio e a sua Ode à Primavera ( em tradução de M.H. da Rocha Pereira).  O poeta compara a natureza à vida dos homens: na natureza tudo se renova cada ano, mas a vida humana caminha sempre em direcção ao fim, por isso é preciso aproveitar cada dia e cada hora.

 

Foram-se as neves e aos campos já a relva regressa

          e às árvores a folhagem;

a terra muda a sua face, e, deixando as margens,

          os rios decrescem.

 

Uma Graça mais as duas irmãs, nuas, ousam dançar

          com as Ninfas.

Não esperes pela imortalidade, adverte-te o ano e a hora

          que arrebata o dia criador.

 

Ao sopro dos Zéfiros, abranda o frio; à Primavera sucede

          o Verão perecedouro, e logo

o copioso Outono espalhará seus frutos; de seguida

           a bruma inerte regressa.

 

Porém o suceder das Luas depressa repara os danos vindos do céu.

          Mas nós, logo que tombamos

no lugar onde está o piedoso Eneias, o opulento Tulo e Anco,

          mais não somos do que pó e sombra.

 

Quem sabe se à soma dos dias de hoje

          juntarão os deuses supernos as horas de amanhã?

Das mãos ávidas do teu herdeiro se escaparão todos os bens

          com que o teu ânimo regalaste.

 

Uma vez morto e ao magnífico julgamento

          de Minos submetido,

nem linguagem, nem eloquência, nem piedade,

          te farão viver.

 

Das infernais trevas, nem Diana liberta

          Hipólito casto,

nem Teseu das cadeias do Letes consegue soltar

          o caro Pirítoo.

 

(Odes, IV.7)

 

publicado por isa às 11:30
Terça-feira, 20 / 03 / 12

Ovídio

O poeta latino nasceu a 20 de Março de 43 a.C., em Sulmona, um vale dos Apeninos.

Recordamo-lo hoje aqui, através da sua obra:

 

                      A criação do homem

 

Faltava ainda um ser mais sublime que estes, mais capaz

de conter uma alta inteligência, que pudesse reger os outros.

Nasceu então o homem. Este, ou o fez de semente divina

aquele artífice do universo, a origem do mundo melhor;

ou então a terra recente, separada há pouco do alto éter,

talvez ainda contivesse sementes do céu, seu parente, terra

que o filho de Jápeto, misturando com água da chuva,

moldou à imagem dos deuses que governam tudo.

E se os outros animais, dobrados para baixo, olham o chão,

conferiu ao homem uma cara virada para cima, e instruiu-o

a olhar para o céu e a erguer o rosto erecto para os astros.

Deste modo, o que há pouco era terra em bruto e sem forma

transformou-se e assumiu formas de homens jamais vistas.

 

Metamorfoses, I, 76-88 (trad. de Paulo Farmhouse Alberto, Livros Cotovia, 2007)

 

Confronte-se com a descrição bíblica:

 

Quando o Senhor Deus fez a terra e os céus, não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar. Mas da terra elevava-se um vapor que regava toda a sua superfície. O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo. (Génesis, 2, 5-7) 

publicado por isa às 11:45
Sábado, 03 / 03 / 12

Currente calamo

Apesar de pouco estudado nas escolas, o latim está na moda e continua a ser muito usado na comunicação social.

Lendo o Notícias de Chaves de 24/02/2012, encontrei um artigo de opinião encimado por este título latino "currente calamo". A expressão latina (um ablativo absoluto, construção sintáctica muito característica da língua latina) pode traduzir-se por "ao correr da pena", quer dizer, trata-se de um texto escrito sem grandes reflexões ou correcções, texto que vai saindo à medida que as ideias surgem. 


Calamo é o ablativo do substantivo calamus, i (derivado do grego kálamos) que significa cana e, por extensão, um objecto feito de cana. Daí designar uma pena ou caneta, feita de cana, com a qual se escrevia.

 

Segundo o dicionário de Gaffiot (Dictionnaire Latin-Français), a palavra calamitas, calamitatis relaciona-se com calamus. Designaria, em princípio a cana que crescia nos campos e prejudicava as searas, daí a conotação de ser algo prejudicial, um desastre, uma calamidade. Aparecia em latim calamitati esse alicui como "ser um flagelo para alguém".

 

Temos, portanto, calamidade, calamitoso — palavras da mesma raiz de calamus "cana".

 

Aliás, o artigo citado, inclui muitas referências clássicas, reflectindo sobre a relação do presente com o passado, na presença da cultura greco-latina nas expressões da modernidade.

publicado por isa às 16:51
Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

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