A cultura e as línguas clássicas

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Segunda-feira, 10 / 07 / 17

Os clássicos sempre presente e úteis!

A equipa de Donald Trump anda a ler Tucídides

 

Nunca duvidámos dos ensinamentos dos antigos, especialmente dos Gregos e dos Romanos, mas parece que mesmo para a guerra eles ainda dão lições. Notícia lida aqui.

 

O historiador Graham Allison afirma que poderá estar iminente um confronto bélico entre os Estados Unidos e a China.

 

Apoiando-se em Tucídides e na sua narrativa da Guerra do Peloponeso, G.H. compara Atenas à China e Esparta aos Estados Unidos, avisando para o que poderá acontecer: Esparta sairá vencedora, mas essa vitória custar-lhe-á muito caro...

 

Por isso, na Casa Branca andam a ler Tucídides, excepto Donald Trump que de Gregos, afirma, só conhece aqueles com quem se cruza em Nova Iorque.

 

 

 

publicado por isa às 15:25
Sexta-feira, 23 / 06 / 17

Os mitos e a sua actualidade

A cultura clássica e a mitologia greco-latina continuam a ser usadas pelos cientistas e pelos estudiosos para designar realidades actuais.

Falando de educação, o psicalista italiano Massimo Recalcati apresenta a sua classificação da evolução do sistema educativo. Três modelos:

 

 

a Escola Édipo: o modelo tradicional e autoritário

 

 

a Escola Narciso: o modelo actual, errático, com aquilo a que chama “ditadura do prazer”, é a ditadura do neo-liberalismo capitalista

 

 

a Escola Telémaco: o modelo que começa a emergir, resultante da estirilidade do presente, da insatisfação dos jovens, “o mal-estar actual da juventude não assenta na oposição entre sonho e realidade, mas na ausência de sonhos”; com a falta de uma autoridade paterna e de lei

 

“A juventude sente a falta de referentes éticos, de figuras paterno/maternas renovadas e confiáveis”

 

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publicado por isa às 08:22
Sexta-feira, 09 / 06 / 17

O bicho-da-seda

A origem das palavras — etimologias

 

O bicho-da-seda e a sericicultura

 

Bicho-da-seda : em latim bombyx, bombycis palavra derivada do grego βόμβυξ da raiz de βόμβος que significa “ruído”

 

Daí vem o nome científico bombyx mori [ morus, mori: amoreira ], nome dado à espécie mais comum, usada na produção de fios de seda

Este insecto é originário do norte da China, alimenta-se de folhas de amoreira, e foi domesticado há cerca de 3000 anos.

 

Seda — em latim sericum (substantivo)

O adjectivo sericus significava “dos Seres”; de seda

Os Seres — designação, para os romanos, de um povo da Índia oriental, ou da China, o povo da seda

 

O historiador Floro [IV, 12] fala da pacificação dos vários povos sob o reinado do imperador Augusto e refere-se a povos que, ainda que independentes, reconhecem a grandeza de Roma e enviam embaixadores, entre eles estão “os Seres, e os Índios que habitavam sob o sol, que trouxeram pedras preciosas e pérolas”

 

Daí o português sericicultura, a cultura da seda e sericicultor, aquele que se dedica ao cultivo da seda

 

E ainda:

sericina : o princípio constitutivo da seda

seríceo : feito de seda

serigrafia : processo de reprodução de imagens sobre papel, madeira... utilizando um caixilho com tela de seda

serígrafo : aquele que faz serigrafias

serigueiro : aquele que faz obras de seda

etc.

 

publicado por isa às 15:43
Segunda-feira, 01 / 05 / 17

Uma cultura humanística para todos

São muitas as vozes que se levantam, nos vários países da Europa, em defesa da cultura clássica, do estudo do Latim e do Grego nas escolas.

 

A professora italiana Emanuela Andreoni Fontecedro, da Universidade Roma Tre (numa entrevista que pode ser lida aqui ), defende que:

 

“é necessário reintroduzir os jovens na cultura humanística com o estudo do latim a partir da escola média. De outro modo “os bárbaros” levarão a melhor."

 

Afirma a professora de literatura latina que desde os anos 80 escreveu muito sobre a necessidade de estudar latim e cultura clássica, mas foi tudo em vão, e daí, declara:

 

“o falhanço da perspectiva educativa deste país, e de outros estados europeus, que renunciaram à sua identidade cultural — fundada no latim e na cultura humanística — está á vista de todos. Não se trata somente de ter traído a própria identidade, mas juntamente com isso ter-se tornado fraco frente às invasões bárbaras (com as quais entendo especialmente o carrocel das idiotices, da maledicência, da conversa vã, dos ídolos primitivos) de assim ter-se ofuscado também a capacidade de compreender o diferente."

 

Por isso defende que:

 

"A cultura profunda de séculos e milénios deveria ser participada por toda a população. Só assim uma sociedade cresce. Daí a necessidade de iniciar a cultura humanística com o estudo do latim a partir da secundária do primeiro grau."

 

"Como professora de literatura e da herança clássica na literatura europeia, observo que a riqueza das disciplinas humanísticas é a âncora do pensamento que oferecem com o seu panorama milenário que engloba a história, a filosofia e as artes. Compreendo que esta força da mente deve ser dada a todos, o mais cedo possível.

 

Escreve: “É um erro sem desculpa o de tornar vazia e superficial uma sociedade, erradicando-a da própria tradição, do conhecimento que forma a mente e a alma de um povo e dão por isso força à nossa escolha. É uma responsabilidade oferecê-la sem raízes às armadilhas materiais e espirituais que a cercam. Mesmo hoje.” Porquê?

 

"A imagem de um povo ignorante, sem história, sem reflexão faz-me pensar no mito da caverna narrado por Platão, justamente na sua República, a obra sobre o Estado. Escravos na caverna os homens não têm conhecimento da verdade e confundem-na com a sombra.

 

A nossa sociedade repudiou a cultura humanística e humilhou os professores da escola, enquanto os media apregoam e premeiam o inútil e o vão. Ora, a cultura humanística serve para compreender o instante que é a nossa vida e ensina a procurar os verdadeiros valores para este instante fugaz, exactamente por isso."

 

 

 

publicado por isa às 20:36
Sexta-feira, 28 / 04 / 17

Falando de aves e de mitologia grega

O mocho-galego

 

Ave nocturna muito comum em Portugal, pouco maior que um melro. É fácil de observar porque tem hábitos parcialmente diurnos, pousa em pontos altos e à beira das estradas ( in http://www.avesdeportugal.info/athnoc.html ).

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Nome científico: Athene noctua (noctua, em latim significa coruja; nome relacionado com nox, noctis “noite”)

 

O nome científico remete-nos para a mitologia — coruja de Atena.

A coruja era a ave consagrada à deusa Atena, protectora de Atenas, com o seu templo na Acrópole.

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Templo de Atena Níke na Acrópole de Atenas (νίκη “vitória”)

 

A deusa Atena (Minerva para os Romanos) tem também como símbolo a oliveira por ter sido vencedora na luta contra Posídon pela posse da Ática, fazendo nascer do solo uma oliveira.

Atena-dracma.png

Tetradracma com a representação de Atena, a coruja e a oliveira

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Moeda grega de 1 euro com a coruja de Atena.

 

A coruja (mocho-galego) passou a ser símbolo de sabedoria, tal como a oliveira de Atena se tornou o símbolo da paz.

 

publicado por isa às 12:10
Sábado, 08 / 04 / 17

O nó górdio

Górdio era uma cidade da Frígia (região da Ásia Menor, actualmente território da Turquia), nome que deriva de um dos seus reis, Górdio.

 

Conta a lenda que, em tempos remotos, estando a Frígia mergulhada em terríveis lutas internas, eis que, certo dia, quando os Frígios estavam reunidos em Assembleia, chega à cidade um camponês, com sua mulher e filho, num carro puxado por bois.

Acontece que um oráculo tinha dito que um carro de bois lhes traria um rei que poria fim aos distúrbios. Acreditando nas previsões do oráculo, os frígios elegeram Górdio como seu rei.

Górdio, como agradecimento, dedicou o seu carro a Júpiter, colocando-o na Acrópole atado com o jugo e um nó difícil de desatar.

Após um longo reinado de paz e prosperidade, a Górdio sucedeu seu filho Midas, que morreu sem deixar sucessor.

 

Então um novo oráculo anuncia que quem conseguisse desatar o nó do carro gordiano, que muitos tentavam desatar sem sucesso, seria o rei de toda a Ásia.

 

Um dia Alexandre, O Grande, entra na cidade e vê na Acrópole o carro e o complicado nó.

Assim nos conta o historiador Quinto Cúrcio (3, 1, 12-14):

Vehiculum quo Gordium, Midae patrem, uectum esse constabat, aspexit, cultu haud sane a uilioribus uulgatisque usu abhorrens. Notabile erat iugum adstrictum conpluribus nodis in semetipsos inplicatis et celantibus nexus.

 

“Viu o carro no qual constava que Górdio, pai de Midas, tinha sido transportado, que, na aparência, não diferia dos mais comuns e vulgares em uso. Notável era o jugo apertado com vários nós entrelaçados em si mesmos e com os laços escondidos.“

 

Quando os habitantes lhe falaram no oráculo, Alexandre tentou cumprir a previsão. Os Frígios rodearam-no, para ver de que modo ele resolveria o intrincado nó que ninguém tinha conseguido desatar, visto que as laçadas estavam feitas com tal arte que não era possível ver nem o princípio, nem o fim ( ut unde nexus inciperet quoue se conderet nec ratione nec uisu perspici posset).

 

Então, Alexandre terá dito:

 

 

"Nihil interest quomodo soluantur",

e

gladioque ruptis omnibus loris oraculi sortem uel elusit uel impleuit.

 

“ “Não interessa a forma como são desatados” e tendo cortado com a espada todas as correias, cumpriu ou zombou do sentido do oráculo.”

 

 

Assim a expressão “nó górdio” ficou como metáfora para designar uma dificuldade que parece impossível de resolver, significando “desatar o nó górdio” a capacidade para, de forma inesperada, resolver o que parecia impossível.

 

publicado por isa às 20:58
Quarta-feira, 05 / 04 / 17

Etimologias — exame e enxame

Exame e enxame a mesma origem etimológica

 

À primeira vista estas duas palavras, com significados bem distintos, parece que nada têm a ver uma com a outra. No entanto, têm uma origem comum.

 

Exame e enxame provêm do mesmo étimo latino: examen.

O vocábulo examen significava, em latim, um conjunto de animais ou pessoas, aparecendo a designar um grupo de homens, ou um conjunto de peixes, ou de abelhas, daí, enxame.

A palavra está relacionada com a raiz do verbo ago e o seu composto ex-ago > exigo.

 

Vejamos:

Verbo ago, agis, agere, egi, actum : pôr em movimento; fazer avançar; agir; fazer.

Desta raiz temos o nome agmen, agminis que significa, em termos latos, multidão; é o termo usado, na linguagem militar, para designar um exército em marcha.

Com o profixo ex-, o nome examen, examinis, tem o mesmo sentido de “multidão” e, portanto, examen apium = uma multidão de abelhas, um enxame.

Ainda com o mesmo prefixo ex-, o verbo exigo, exigis, exigere, significa “tirar para fora”, “expulsar” e também, por isso, examinar, medir, pesar.

Examen, substantivo, era ainda o nome que designava o fiel da balança.

Então examen significa também “exame” (do estudante) e não só, e toda a ideia de medir, pesar.

 

Assim se explicam as palavras divergentes, em português, exame e enxame, sendo esta última resultante de uma evolução fonética, motivada, certamente, pela pronúncia do x em determinada época e região, e que levou ao acrescento da consoante nasal –n.

 

Com esta mesma raiz se relacionam outras palavras portuguesas: agir, agente, agenda, exigir, reagir, redigir e também (da raiz do supino – actum) acto, acção, acta, actor, redacção, entre outras.

publicado por isa às 19:00
Domingo, 05 / 03 / 17

A história das palavras

Há palavras com uma origem curiosa, e esta é uma delas: mausoléu.

 

O dicionário diz-nos que um mausoléu é um monumento funerário grandioso e rico.

 

O nome deriva de Mausolo e remete-nos para uma das sete maravilhas do mundo antigo, o Mausoléu de Halicarnasso.

Halicarnasso era uma cidade da Anatólia, junto ao mar, e Mausolo foi o seu rei, sucedendo ao pai em 377 a.C.

Corresponderá à actual Bodrum, na Turquia.

Após a morte de Mausolo, em 353 a.C., a mulher (e irmã), Artemísia, mandou construir um monumento de homenagem ao seu amor — um Mausoléu, obra do artista Pítias. No entanto, as datas apontadas pelos historiadores parecem indicar que a construção do Mausoléu terá começado ainda em vida de Mausolo (entre 370 e 365 a.C.).

Deste monumento grandioso, que começou a ser escavado em meados do século XIX, pouco ou nada resta. A sua sumptuosidade, no entanto, é descrita pelos autores antigos, especialmente Vitrúvio e Plínio, o Antigo. E muitos foram os artistas que, ao longo dos tempos, nos apresentaram a sua reconstituição do monumento.

Para completar a memória deste amor e deste monumento, o escritor Aulo Gélio conta-nos que, no auge de um louco sofrimento, Artemísia terá misturado as cinzas do seu amado num copo com vinho que depois ingeriu, assim ficando sempre consigo o grande amor da sua vida.

  

Para aprofundar o tema ver:

José Ribeiro Ferreira e Luísa Nazaré Ferreira (Orgs.), As Sete Maravilhas do Mundo Antigo – Fontes, Fantasias e Reconstituições, Edições 70, 2009.

 

Captura de ecrã - 2017-03-05, 12.24.50.pnglocalização de Halicarnasso

Captura de ecrã - 2017-03-05, 12.27.27.png

ruínas do Mausoléu de Halicarnasso, em Bodrum, Turquia

Captura de ecrã - 2017-03-05, 12.27.06.png

estátuas de Mausolo e Artemísia

 

 

 

publicado por isa às 15:23
Segunda-feira, 13 / 02 / 17

"O presente não basta"

O título é de Ivano Dionigi, professor italiano que foi, até 2015, reitor da Universidade de Bolonha, e que publicou, em 2016, um livro intitulado "Il presente non basta. La lezione del latino" (ed.Mondadori).

 

Das entrevistas dadas a propósito do lançamento do livro destacam-se afirmações como estas:

 

"O latim ensinou-me a centralidade da palavra, o valor do tempo e a nobreza da política"

"Ensina  a importância de agir para o bem [mostra o valor ] de uma política que pode ser a expressão mais nobre do homem"

"ensina a centralidade da palavra e ajuda a fazer a distinção entre o simples vocábulo e a palavra de sentido e verdade"

publicado por isa às 15:28
Segunda-feira, 16 / 01 / 17

Cessação da Secção ? Não

A PALAVRA E O SEU SIGNIFICADO — ETIMOLOGIAS

 

A língua portuguesa é rica em vocábulos que, à primeira vista, muito parecidos têm, no entanto, significados diferentes. Portanto há que estar atento!

 

Vejamos as semelhanças entre alguns vocábulos portugueses e as diferenças que vêm da sua origem:

 

cessação “acto de cessar”, “suspensão”, “interrupção”— do latim cessatio, cessationis “paragem”, “cessação”

da raiz do verbo: cessare “parar”, “cessar”

 

— cessão “acto de ceder”, “cedência” — do latim cessio, cessionis “acção de ceder”

   da raiz do verbo cedo, is, ere, cessi, cessum: “andar”, “ir-se embora”, “ceder”, “recuar”

 

secessão “separação daqueles a que se estava unido”

do latim secessio, secessionis “afastamento”, “secessão”, “revolta”

do verbo secedere [composto de se + cedo ] “caminhar à frente”, “afastar-se”, “separar-se”

 

sessão — do latim sessio, sessionis “acção de sentar”, “sessão”, “audiência”

da raiz do verbo sedere “estar sentado”, “estacionar”, “fixar-se”

e sedes, is “assento”, “morada”, “centro” , “sede”

 

Palavras portuguesas da mesma raiz:

  • sede — lugar onde alguém se pode sentar; edifício principal de uma empresa/instituição
  • sedentário (é o que está sempre sentado)

 

                                 [ sessação — sessar (Brasil): peneirar ]

 

seção “humidade na terra” – termo popular e regional (Trás-os-Montes)

 

secção do latim sectio, sectionis “corte” ; daí também “venda em lotes” (dos bens confiscados)

da raiz do verbo secare “cortar”, “separar”

 

Da mesma raiz:

  • sector
  • sectorial
  • sectário
  • seitoira (Trás-os-Montes) “foice para ceifar” [ do latim sectoriasector, sectoris “o que corta”, “cortador”]

 

Portanto, se alguma vez o convidarem para uma sessão sobre agricultura biológica, não faça cessão aos seus hábitos sedentários. Levante-se da sua cadeira e vá. Se, no final, ficou convencido e quer mudar de actividade, não se precipite, vá primeiro à sede da sua empresa, e proponha-lhes a criação de uma secção sobre esse tema. Se o chefe não ceder aos seus argumentos, arme uma secessão. Se está mesmo convencido das suas razões, não se importe que lhe chamem sectário. Em última instância, peça a cessação da sua actividade e parta para iniciar o seu sonho. Tem que aprender muitas coisas nesse sector. Comece pelo princípio, aprenda a ver se a terra tem seção e, quando for preciso, pegue na seitoira e meta mãos à obra.

Na escola ouviu falar da Guerra da secessão dos Estados Unidos, nas lutas entre o Norte e o Sul. Mas cuidado, esta sua secessão exige sucesso, que é outra coisa, e só se alcança com união.

 

 

 

 

 

publicado por isa às 19:26
Temas a tratar: o latim e o grego — seu estudo; a língua e a cultura; as origens da língua portuguesa; etimologias; a cultura clássica e a cultura portuguesa

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